jornaleconomico.sapo.ptAna Pina - 14 jan 00:08

A recusa do caos

A recusa do caos

Só a perspectiva concreta de uma ideia de normalidade alcançável nos poderá resgatar da normalização do impensável, da contemporização com as aberrações que se têm afirmado. Vale a pena pensar nisto.

No dia de hoje começa um novo confinamento hard. Voltaremos a ficar fechados, limitados na nossa liberdade de acção e circulação, privados da normalidade que conhecíamos. Se tudo isto se reveste de estranheza e excepção, a situação torna-se ainda mais superlativa, se lhe adicionarmos uma campanha eleitoral e uma eleição de magna importância.

Não, não há um novo normal; há a fatalidade da vulgarização do anormal. Há um enorme pântano onde nos arrastamos sem uma ideia de fim que nos dê o alento de que urgentemente precisamos. Só a perspectiva concreta de uma ideia de normalidade alcançável nos poderá resgatar da normalização do impensável, da contemporização com as aberrações que se têm afirmado.

Donald Trump, ao protagonizar o acto de terrorismo interno mais chocante da história americana, é um sinal e um sintoma do pântano em que nos encontramos. Por todo o mundo, não falta gente capaz de, ainda hoje, defender Trump, ora mentindo, ora relativizando o injustificável, ora lembrando-nos os sinistros personagens dos filmes da Hammer, em que alguém em transe falava as línguas dos demónios que o tinham possuído.

O pensamento lógico e racional, não é compatível com esta atitude de seita. O que serviu até hoje de caricatura comunista, com as tentativas de branqueamento das inúmeras desgraças vermelhas no mundo, é hoje largamente ultrapassado por esta horda alienada que se instalou numa realidade alternativa insana.

Acredito que a expansão desta mega alienação colectiva prospera com condições únicas em tempos de caos, como as que vivemos. O sistema treme, quando não colapsa, e os agentes oportunistas aproveitam. Os piores momentos da história da humanidade medraram em tempos de crise, de carência, de insatisfação. As seitas oferecem um sentimento de pertença e uma ideia de segurança pela certeza que apregoam; como não há lugar para a verdade, tudo é possível.

Pode o maior dos corruptos ser o paladino da luta contra a corrupção, porque está isento do escrutínio dos seguidores da seita. Pode violar todos os princípios morais e éticos, porque, na realidade alternativa, está incumbido de um bem maior que o legitima. Pode estar disponível para violar sem pestanejar a lei fundamental, porque o fará sempre por uma grande causa. É assim com Trump. É assim com todos os populistas inspirados por Trump.

A mimetização, a internacionalização de uma agenda de terrorismo institucional e político, é a mais ampla até hoje conhecida. A rede mundial soviética, a que o Ocidente fez frente, e os valores da liberdade e democracia derrotaram, regia-se por lógicas de poder clássicas e regras conhecidas; não era o caos contra a ordem, era um conflito entre ordens opostas.

O que vivemos actualmente, também de origem em Moscovo, visa o m��ximo caos possível e é mais destruidor do que todo o terrorismo islâmico junto, porque o novo jiadista é o nosso vizinho, até ontem normal. A título de exemplo muito claro, sabemos que em Portugal não há dúvidas quanto à fiabilidade dos processos eleitorais desde 1958. Ainda assim, o mini Trump português, à imagem do que a sua imagem paternal fez na América, lançando a Democracia no caos, não hesitou em tentar descredibilizar o processo eleitoral em curso, seguindo a mesma exacta linha de argumentação. Se não acontece o que o pastor da seita exige, há fraude!

Na passada semana, tivemos o vergonhoso desfile por Lisboa de uma das maiores inimigas dos portugueses e da Portugalidade. Junta a isso o maior desprezo pela democracia, pelos Direitos Humanos, por tudo o que fez a Europa grande e digna. O que racionalmente seria visto como uma traição, foi motivo de júbilo, gáudio e, pior, inspiração. Não faltaram fiéis portugueses da seita a defender o fim do estatuto que a língua portuguesa tem hoje na escola pública francesa, a aplaudir a herdeira de Vichy por dizer que o seu humanismo está reservado apenas aos franceses.

Os milhões de emigrantes portugueses que ajudaram outros países a serem grandes, ajudando ao mesmo tempo Portugal, que se lixem! Não fazem parte dos tais “portugueses de bem”. A obediência cega ao símbolo do fascismo francês vale bem a ofensa e a traição a Portugal e aos Portugueses. Desculpem, mas não é normal! Como não é normal, ou digno, nada do resto que por ali se passa.

É verdade que, num período de enorme desafio e dificuldade da nossa história, temos um dos piores governos da Democracia. É verdade que os ministros de Costa estão a léguas do mínimo exigível de dignidade política para o exercício dos cargos que ocupam, e que Costa convive bem com essa indignidade, preferindo a cumplicidade à decência que o Estado exige. A continuidade nos cargos de Francisca Van Dunem ou Eduardo Cabrita é aviltante para o mais elementar sentido de dignidade política.

Pedro Nuno Santos é a personificação da arrogância sectária, do desrespeito absoluto pelo dinheiro dos contribuintes, de um incapaz num lugar de risco. Houve a vergonha de Tancos e a incapacidade de um ministro para a explicar, ou sequer explicar a sua distância. Há nepotismo e compadrio, como nunca. Há uma assustadora banalização da pequena vigarice, com o interminável desfile de curricula falsos dos boys do partido. Há uma clamorosa falha na direcção política da crise pandémica, com resultados catastróficos à procura de um responsável. É o tal pântano de que falava.

Mas desde quando, em face das adversidades, deixamos de procurar uma saída para uma vida melhor? Desde quando é que alguns de nós começaram a procurar no caos a resposta ao pântano? Desde quando ficámos dispostos a deixar de ser quem somos, para incarnar uma caricatura grotesca de nós mesmos?

Como se dizia numa célebre rubrica da rádio, já agora, valia a pena pensar nisto.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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