eco.sapo.ptCarlos Guimarães Pinto - 14 jan 08:00

Paradoxo da abundância

Paradoxo da abundância

Precisamos de jornalistas independentes que abandonem os sonhos juvenis de serem ativistas de uma causa, e em vez disso ofereçam factos, factos e mais factos.

Quem ainda teve a oportunidade de viver no período antes da internet, lembra-se das expectativas que foram criadas com o seu aparecimento, especialmente os benefícios para a discussão pública e mesmo para a democracia. O acesso a enormes quantidades de informação só poderia melhorar a discussão pública, afinal de contas teríamos mais dados para discutir e mais diversidade de opiniões para comparar.

Estando todas as premissas certas, houve outras duas premissas que foram esquecidas nesta previsão. A primeira é de que a capacidade de processamento de informação dos seres humanos não se alterou. Podemos ter acesso a muito mais informação, mas não a conseguimos ler e interpretar toda a informação. O nosso cérebro manteve-se inalterado e até mais sujeito a distrações. Mais coisa menos coisa, continuamos a ler tanto como líamos antes, mesmo que agora seja menos livros e jornais e mais posts de facebook, mensagens de Whatsapp ou imagens do Instagram.

A segunda premissa que falhou é que o ser humano, podendo escolher, prefere informação que confirma as suas convicções. Tendo mais por onde escolher, tenderá a escolher mais vezes a informação mais próxima das suas convicções. Estas duas realidades juntas tiveram um efeito nefasto no acesso a informação e na formação de opinião. Com tanta abundância de informação, mas com a nossa capacidade de a processar inalterada e a nossa preferência por acedermos a informação que confirme aquilo em que já acreditamos, muitos acabam a consumir menos variedade de informação do que antes. Até podem consumir mais informação, mas acabam por aceder a informação menos variada.

Na minha infância existia o Jornal do Incrível em que pessoas que queriam muito acreditar em histórias do além podiam encontrar “notícias” que justificavam as suas crenças. Mas o jornal lia-se rapidamente e qualquer pessoa que o comprasse acabaria também por ser exposto a outras visões menos esotéricas do Mundo. Hoje essa pessoa pode passar o dia todo a ler apenas essas histórias que só apareciam no Jornal do Incrível e construir a sua visão do Mundo em torno daquilo que lê.

Como a informação é tanta e tão variada, não importa o quão deslocada ou falsa é uma posição sobre determinado assunto que quem deseja muito acreditar nessa posição encontrará sempre muitas fontes que a confirmem ou pareçam confirmar. Se não encontrar, pode ele próprio produzi-las.

Pior do que isso, com o emergir das redes sociais e respetivas bolhas de “amigos”, é possível alguém viver de forma permanente num mundo alternativo em que qualquer teoria por mais absurda que seja pode passar por verdade porque há sempre umas dezenas de pessoas disponíveis para concordar e umas centenas de artigos a confirmar essa versão. Por muito falsa que uma teoria seja, estando milhões de pessoas em contacto, será sempre possível construir um mundo virtual de dezenas, centenas ou mesmo milhares de pessoas que acreditam no mesmo, partilham informação confirmatória, formando uma bolha que os protege de outras pessoas e informações que contrariem as suas crenças. As relações sociais que se formam dentro dessas bolhas em torno de crenças comuns tornam ainda mais complicado aceder a informação diferente, ou divergir substancialmente da bolha.

Com tantas certezas absolutas, confirmadas por tantas leituras disponíveis no mesmo sentido e toda uma bolha social acreditando no mesmo, não é portanto de surpreender que o panorama político se tenha entrincheirado e tornado maniqueísta. Afinal, se toda a informação que existe (no mundo de cada um) e todas as pessoas desse mundo confirmam a minha posição, só por má fé, ignorância ou desonestidade alguém pode acreditar noutra coisa. Os outros são “carneiros”, “negacionistas”, “totalitários” ou “ignorantes”. Só eu e a minha bolha de “amigos” é que sabemos a verdade porque, apesar de pensarmos todos o mesmo e lermos as mesmas coisas, só nós pensamos pela própria cabeça.

Temos assim um paradoxo em que o acesso a mais informação e a mais pessoas não resulta numa maior abertura a outras ideias, mas numa barreira a discuti-las. Criam-se assim trincheiras políticas, mundos de teorias de conspiração, em que a discussão é impossível. O fim previsível de um mundo em que a discussão é impossível é as diferenças acabarem resolvidas de outra forma.

Não sei se existe solução para isto. Em geral, é um erro achar que só porque um problema existe deve existir uma solução política para ele. Precisamos de ter órgãos de comunicação social independentes e plurais que sirvam de plataformas de encontro entre diferentes visões e informações que as validem. Precisamos de jornalistas independentes que abandonem os sonhos juvenis de serem ativistas de uma causa, e em vez disso ofereçam algo que pode parecer chato, mas que começa a ser revolucionário no atual ambiente: factos, factos e mais factos. Sem interpretações, sem objetivos dissimulados, apenas isso: factos. Não sei se ainda vamos a tempo.

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