www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 13 jan 12:51

Escolas – confinar ou não confinar?

Escolas – confinar ou não confinar?

A situação pandémica em Portugal é dramática e ainda vai no adro a terceira vaga. Quando a explosão de casos que tivemos agora em Janeiro chegar ao ponto de rebuçado, vamos ver a mortalidade disparar para valores ainda mais estarrecedores. - Opinião , Sábado.

Parte 1

A situação pandémica em Portugal é dramática e ainda vai no adro a terceira vaga. Quando a explosão de casos que tivemos agora em Janeiro chegar ao ponto de rebuçado, vamos ver a mortalidade disparar para valores ainda mais estarrecedores.

Uma das questões que tem levantado mais polémica é o possível confinamento da população escolar. Por um lado, há dados que indicam que o impacto das escolas na circulação do vírus está seguramente muito longe de ser despiciente (ver abaixo). Por outro lado, as consequências do confinamento para os jovens e famílias de alguma forma mais frágeis e mais desafiados pela pandemia pode ter consequências negativas impossíveis de avaliar.

Estamos perante um dilema ético e moral de enorme gravidade: evitar mortes, seguramente muitas mortes, na população idosa, de risco, e nos doentes não-COVID afetados pelo colapso já em curso do SNS, ou provocar danos potencialmente irreversíveis na população infantil e juvenil.

Não é possível escamotear o papel das escolas na circulação do vírus (ver abaixo) mas também não é possível ignorar o potencial impacto profundo do confinamento escolar em crianças e jovens com fragilidades, que poderá mesmo levar a mortalidade.

Acontece que a fatura de vidas está com uma progressão imparável, que não é sequer possível de conhecer neste momento, porque o aumento das mortes não COVID não está a ser estimada e vai apresentar um aumento retardado impossível de prever. Mas não há dúvidas, neste momento, que vai ser brutal. É moralmente criminoso não atuar em todas as frentes que é possível, e as escolas são incontornáveis nesta equação que nos dilacera.

As escolas devem fechar, por um mês que seja! As escolas são um pivot silencioso mas muito ativo de circulação do vírus (ver abaixo) e não estamos em situação de escamotear medidas, estamos a falar de muitas vidas! Já, agora! Atente-se que a morte é irreparável e os jovens são seres altamente plásticos e que, por vezes, "o que não mata engorda". Estamos a falar de um mês! No mínimo dos mínimos, coloquem-se as escolas a fazer ensino híbrido, presencial e à distância, mantendo-se na escola os alunos que não têm condições em casa, cujos pais não podem acompanhar os filhos, ou que toleram menos bem o confinamento, e indo para casa aqueles que tiverem condições e apoio. Isto salvaguarda a importância da escola nos alunos/famílias mais desfavorecidos/frágeis e mais desafiados pela situação pandémica, e permitirá melhorar muitíssimo as condições anti-contágio nas escolas.

Esta situação híbrida acarretará uma sobrecarga forte para os educadores. Mas aligeire a tutela as metas curriculares para este ano e dê liberdade para se ensaiar um outro tipo de ensino que não seja o massacrar os alunos com conteúdos e métodos obsoletos. Reinvente-se o papel do/a professor/a, centrado na descoberta, na orientação e canalização da curiosidade natural dos alunos para assuntos e realidades atuais, motivadores e fomentadores da interação, da criatividade e da autonomia. O importante, neste momento, é a interação humana, o realizar tarefas que deem prazer, não o atingir de metas que poderão ser recuperadas ou compensadas de muitas formas no futuro. Porque há um futuro para as crianças e jovens. Para quem morre não há!

Parte 2

Porque é que as escolas são um pivot silencioso mas muito relevante de circulação do vírus da COVID-19?

(o conteúdo abaixo é uma adaptação do conteúdo de um artigo publicado anteriormente na SÁBADO)

1) Há duas premissas essenciais para a correta avaliação do papel das escolas na circulação do vírus: i) as crianças e jovens raramente desenvolvem sintomas quando infetadas pelo vírus da COVID-19; ii) os testes COVID-19 são realizados a "pessoas com suspeita de COVID-19", ou seja:  "todas as pessoas que desenvolvam: quadro clínico sugestivo de infeção respiratória aguda (...); perda total ou parcial do olfato (...)" (sic do site da DGS). Corolário imediato: NÃO EXISTEM, em Portugal, como na maioria dos países, quaisquer dados fiáveis sobre a prevalência ou disseminação da COVID-19 entre crianças e jovens, pois estas raramente desenvolvem sintomas e portanto não são testadas. Logo, estamos praticamente às cegas relativamente ao que se passa nas escolas em termos de circulação do vírus! Mas atente-se aos dados abaixo.

2) Os dados da DGS publicados no Público no dia 5 de novembro (https://www.publico.pt/2020/11/05/sociedade/noticia/covid19-acelera-populacao-jovem-1937975) mostram que, de 14 de outubro a 4 de novembro, período em que a curva de crescimento da segunda vaga disparou, a faixa etária com maior aumento de casos foi precisamente a faixa etária dos 10 – 19 anos (108,5%), muito acima de todas as outras faixa etárias, que tiveram aumentos na casa dos 70%. De salientar que mesmo o aumento de casos dos 0 - 9 anos foi de 69,1%, sendo semelhante ao aumento observado nas faixas etárias dos adultos. Se cruzarmos estes resultados com as duas premissas enunciadas no ponto 1, ou seja, que estes resultados dizem respeito apenas a crianças e jovens com sintomas, que constituem apenas uma pequena % dos que contraem o vírus, começa a desenhar-se um cenário ameaçador!

3) Começam também a aparecer artigos científicos sobre a COVID-19 em crianças que mostram que estas têm cargas virais semelhantes ou mais elevadas do que os adultos na sua nasofaringe, e durante períodos prolongados, prevendo-se que possam ser agentes de contágio importantes*.

4) Torna-se assim claro que o contágio entre crianças e jovens é uma realidade incontornável. Adicionando a essa realidade o elevadíssimo nº de contactos sem ou com baixa proteção que ocorrem numa escola, e o tempo prolongado de partilha de espaços fechados com um número muito elevado de colegas (com ou sem máscara, dependendo da idade), percebe-se que a contribuição das escolas para a circulação do vírus só pode ser muito significativa.

Conclusão:

É óbvio que enviar pelo menos parte da população escolar para casa, diminuindo drasticamente aquela que é uma população aberta à circulação do vírus, e permitindo medidas muito mais eficazes de controlo anti-contágio na população que ficar na escola, terá um impacto significativo no achatamento que urge da curva epidemiológica. Isto sem praticamente qualquer impacto negativo na economia. Mas o grande impacto seria o confinamento total. E é o que a situação exige. As curvas de casos e de mortes são avassaladoras e estão totalmente fora de controlo!

* doi:10.1001/jamapediatrics.2020.3988

doi:10.1001/jamapediatrics.2020.3996

doi:10.3201/eid2610.201315

doi:10.15585/mmwr.mm6931e1

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