visao.sapo.ptluisdelgado - 13 jan 22:18

Visão | A arte de (não) confinar

Visão | A arte de (não) confinar

Sem fechar escolas não há, verdadeiramente, confinamento. Os números dizem tudo: estamos a falar da circulação diária – e esse é o perigo – de milhões de pessoas. 1.2 milhões são os alunos, multiplicando pelos pais já estamos nos três milhões, e acrescentado professores, funcionários, transportadores e tudo o resto, chegamos a um mínimo de 4 milhões pessoas envolvidas, e não confinadas

O primeiro ministro (PM) não gosta de confinar. Dá-lhe nervos. Há uns meses garantiu, com vigor, e repetidamente, que o país não aguentaria um segundo confinamento. Fora de hipótese, dizia. Pois, percebe-se agora. O que o primeiro ministro anunciou hoje, para entrar em vigor às zero horas do dia 15 (mais um dia de contágios, internamentos e mortes absurdas) foi um confinamento assim-assim. Mais ou menos. É um confinamento que é, mas não parece. É uma coisa difícil de caracterizar. Nem fecha tudo, nem abre tudo. É uma sopa sem legumes. É uma pena.

A manutenção das escolas abertas, todas, em todos os ciclos, quebra de imediato a contenção da pandemia, que era o objetivo. . Para mais, talvez. Sendo assim, metade do confinamento já foi. Eventualmente todo. É preciso ser claro: não é uma questão de as escolas estarem preparadas, e de algumas faixas etárias poderem não ser uma porta de entrada fácil para o vírus, ou não detetável, mas esta decisão, fundamentada na educação de uma geração, pode fazer zero, nada, na contenção dos números desastrosos da pandemia. Não tem sentido. Isto é um meio confinamento. O PM, de facto, não quer fechar o País.

O “lockdown” parcial, aplicado agora, não vai deixar o SNS respirar, descansar e absorver mais uns tantos milhares de pessoas que têm de ser internadas em enfermaria ou UCI. Não há mais equipas, e só nos próximos quinze dias ou três semanas é que se perceberá se existiu algum abrandamento. Ou não. Isto tem uma consequência direta: serão mais 120 ou 150 mil contagiados, neste curto espaço de tempo. Depois basta aplicar os rácios para internamentos e mortes. E cada dia assim, é um dia perdido, para todos.

A decisão do Governo resumiu-se, na verdade, a anunciar um confinamento que, na prática, não existirá. Não vamos a ver as ruas de Lisboa como vemos as de Londres, ou outras grandes capitais europeias, e é nisto que pode falhar este novo esforço nacional. O PM tinha de ser duro e implacável, nesta fase, e não foi, de forma nenhuma. O PM é teimoso, mas a pandemia não perderá muito tempo em mostrar-lhe que não fez o que devia. Coisa nenhuma. Nem ajuda o SNS, nem nos dá grande descanso. É isso que cansa, que desmotiva, que leva ao desleixo. Nunca vamos ao fundo, estamos sempre nas meias medidas. Isto não é um confinamento geral, é outra “coisa” qualquer. Arte abstrata.

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