www.publico.ptpublico@publico.pt - 13 jan 21:29

Não é fácil ser médico em tempos de covid

Não é fácil ser médico em tempos de covid

Escolher uma área relacionada com a saúde implica globalmente a vontade de ajudar o outro a lutar contra a doença e a dor, com o menor sofrimento possível

“Agora é tudo covid.” Já ouvi tantas vezes, quando ao observar um menino doente, começo a fazer perguntas aos pais que induzem a que possa estar a pensar no coronavírus (e como poderia não pensar?). Estar mascarada e com uma viseira, facilita que a manifestação não verbal da minha mímica facial seja filtrada, focando-me no que sei ser fundamental, e o motivo do meu trabalho: a saúde dos seus filhos.

Finjo não ouvir, e quando consigo passar a mensagem que, em primeiro lugar, o que interessa é a saúde do menino, que o tratamento e vigilância clínica é semelhante ao do tempo antes da covid, se a suspeita é virose, falando também dos sinais a ter em conta para outras possíveis doenças mais graves, então volto a falar na covid sem pestanejar, explicando que “agora não é tudo covid”, mas que infelizmente o vírus está mesmo muito disseminado e que é importante fazer o teste, quando me parece indicado, ou a covid nunca mais nos larga.

Não é fácil ser médico em tempos de covid. Sendo pediatra, sou brindada pela magia da alegria infantil que me contagia e me faz esquecer temporariamente a pandemia. Faz-me esquecer que estou irreconhecível, ao ponto de por estes dias uma mãe me ter dito, numa consulta de urgência, que a sua menina era seguida pela Dra. Vânia... (Era eu.) Sendo uma criança saudável, já não nos víamos desde o antes de ser quase tudo covid.

Pensando bem, se me olhar ao espelho, vestida de astronauta, só sei quem sou porque sou eu a olhar para mim e a imagem reflectida imita os meus gestos, e como não acredito em assombrações, sou mesmo eu.

Admiro genuinamente os meus colegas. Os médicos de família que não têm mãos a medir e que continuam a ser alvo da injustiça de quem não reconhece o seu trabalho. Os internistas, os intensivistas, os anestesistas. Todos os que estão 24/24 horas a tratar os doentes covid, principalmente os muito graves. E também os enfermeiros, os auxiliares, ou seja, todos os que estão constantemente na linha da frente. 

Nenhum de nós quer ser herói, presumo, e dispensamos aplausos também. Falo por mim, mas julgo que pensam como eu, porque escolher uma área relacionada com a saúde implica globalmente a vontade de ajudar o outro a lutar contra a doença e a dor, com o menor sofrimento possível. Dar qualidade de vida. No caso da pediatria, ajudar as crianças a crescer e amparar os pais nesse caminho.

Mas não somos só nós, profissionais de saúde, que estamos cansados. Estamos todos muito cansados.

Apesar de “agora não ser tudo covid”, o facto de existir quem goze com a pandemia ou acredite que foi tudo ardilosamente engendrado em teorias de conspiração de humanos maquiavélicos com agendas diabólicas ou economicistas ocultas, argumentos dignos de um filme oscarizado, só leva a que isto nunca mais acabe.

Ninguém no seu perfeito juízo quer que isto “agora seja tudo covid”. Mas a realidade está diante dos nossos olhos (excepto dos acometidos por cegueiras temporárias como os negacionistas ou os tais que inventaram um mundo paralelo, estilo Twillight Zone):

  • As infecções galoparam, e grande parte dos transmissores do vírus são assintomáticos;
  • A mortalidade é expressiva (para usar um eufemismo);
  • Os hospitais estão literalmente a rebentar pelas costuras (sem eufemismo);
  • Vamos voltar ao confinamento.

Eu não quero que isto “agora continue a ser tudo covid”.

Tenho muita esperança na vacina e mantenho-a, mesmo com as novas variantes. Acredito na comunidade científica que estuda minuciosamente o coronavírus e vai assegurar tudo o que for necessário para que a imunização funcione. Assim como no passado conseguiu para outros vírus e bactérias.

Já assimilei que vão sempre existir os do “contra”, espécie de perturbação de comportamento de desafio/oposição, tal  como existe em crianças. Só que, desta vez é nos adultos, ou porque negam, ou porque alucinam, ou porque hastearam a bandeira da afronta à liberdade individual e do antiautoritarismo.

Eu não deixei de ser livre por usar máscara ou por me privar temporariamente de muitas coisas que adorava fazer. A liberdade é um estado mental e muitos dos que se insurgem contra estas medidas, tomadas para o bem dos mais frágeis, por terem de prescindir da liberdade que tinham, por viverem em democracia, estão a ser injustos com a própria sorte, por não terem nascido, por exemplo, na Coreia do Norte.

Usando a psicologia inversa, tem “alguma lógica” o que dizem: Tal como todos os outros micróbios incontáveis que nos rodeiam, o coronavírus é invisível. Estaremos a fugir uns dos outros por sermos anti-sociais, usamos máscaras para esconder o sorriso e todas as medidas adoptadas à escala planetária não fazem sentido nenhum. As pessoas sempre morreram, portanto a ciência não serve para nada, neste caso saber da existência de um vírus que pode matar muita gente não tem interesse.

Se não soubéssemos como o detestar mantínhamos a nossa vida tal como era, as pessoas morriam por uma infecção desconhecida, os hospitais deixavam de existir (porque logisticamente não seria possível tratar tantas pessoas acometidas pela doença desconhecida e que até se espalharia pelas enfermarias, dizimando também os doentes com outras patologias conhecidas).

Resumindo: Sobreviveriam os mais fortes, que pela sua herança genética combatiam a doença desconhecida (e também as outras, pois não existiriam hospitais), e dentro de algum tempo o mundo voltava a ser o que era (mas sem hospitais).

A isto, chama-se teoria da selecção natural, assim como Darwin a descreveu.

Portanto, embora “agora não seja tudo covid”, parece indiscutivelmente mais lógico mantermos os valores morais e éticos como Humanidade que já evoluiu, e continuarmos a confiar na Medicina como ciência, que apesar de não ser exacta permite que sejamos tratados quando adoecemos e que evitemos certas doenças se adoptarmos estilos de vida saudáveis.

“Agora não é tudo covid.” É verdade.

A nossa vida tem tantas coisas boas não covid e que, prioritariamente, teremos também de proteger — além de evitar a doença grave e a morte por covid —, numa altura em que o vírus acelerou velozmente na maratona e ganha terreno na luta contra a Humanidade.

O futuro dos mais novos é um dos bens mais preciosos a proteger.
É a geração que nos vai substituir.

“Agora não é tudo covid.”

Existem as outras doenças, que nos preocupam a todos. Existem os danos colaterais, inevitavelmente expressos no empobrecimento das famílias. E por isso temos de fazer o que é preciso, ou a luz no fundo do túnel torna-se cada vez mais distante.

E por não ser tudo covid, temos de nos proteger mais — não me refiro às máscaras ou lavagem das mãos —, mas temos de nos proteger interiormente, para enfrentar os próximos tempos. Procurar formas de rir e de manter um nível de optimismo, focando-nos nas coisas boas que ainda temos o privilégio de ter. Desligar de redes sociais e de notícias, se nos sentirmos sobrecarregados.

A selecção natural Darwinista não é compatível com uma vida humana com significado. Eu não sei o que me vai acontecer amanhã, mas dou um sentido à minha existência. E activei todos os meus mecanismos de defesa para me adaptar o melhor possível a um mundo aparentemente tão hostil. Tenho os meus portos de abrigo.

Quero ver o copo meio cheio, mesmo sabendo que vem aí a blue monday, a segunda-feira tendencialmente mais depressiva, calculada como sendo um mês a seguir ao Natal. Porque “agora não é tudo covid” e se formos persistentes e resilientes hão-de deixar de dizer “agora é tudo covid” de vez. Não percamos a esperança.

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