www.publico.ptpublico@publico.pt - 23 nov 00:15

Deixemos o futuro respirar

Deixemos o futuro respirar

Portugal não é uma “ilha isolada” e poucos são os países que poderão decidir “construir um futuro autónomo”. Mais importante será o que for original e difícil de ser copiado.

“Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros”
P. António Vieira (História do Futuro, 1718)

O termo “futuro” pode ser aplicado com significados diferentes. O tempo que há-de vir, após o presente, pela incógnita que engloba, costuma abranger significados austeros. Mas o “futuro” é também utilizado para qualificar o progresso e o sucesso associado ao novo: “a gasolina é o combustível do futuro”, “o nuclear é a energia do futuro”, “o plástico é o material do futuro”. O futuro é, assim, um risco, pois o tempo pode convocar a julgamento os futuros já passados. Não raras vezes os dois significados misturam-se num novelo. “A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses”, escreveu o Padre António Vieira. Muito se tem esforçado a Humanidade para dominar esta referida ciência utilizando os mais diversos instrumentos, artes, rituais, feitiços e pitonisas. Mas a Ciência contemporânea impõe condicionamentos bem definidos à previsão fiável da evolução temporal dos fenómenos que estuda.

A literatura está mais livre para penetrar em todos os futuros. É o que ocorre com a ficção científica ou com os autores que aplicam a sua sensibilidade e intuição na premonição de situações futuras. Na divulgação de novas tecnologias intensificou-se o anúncio de modificações abruptas e determinantes na sociedade humana. O conceito de disrupção tornou-se para muitos como sinónimo de um comportamento positivo e virtuoso, quase indispensável para um sucesso rápido no domínio comercial ou um passo numa evolução humana diferente. A pandemia da covid-19 veio retirar à “singularidade” tecnológica a responsabilidade dessa disrupção global tão anunciada. E esta é uma disrupção forçada e reforçada envolvendo vários tipos de crises. O futuro imediatamente pós-covid suscita, assim, um interesse especial por parte dos governos e também dos autores que têm a coragem de não evitar o apetite referido pelo padre António Vieira.

No panorama editorial e de comunicação surgem então livros e ensaios com antevisões desse futuro próximo. De forma muito prudente e inteligente, essas notícias urgentes são, maioritariamente, constituídas pela projecção de tendências objectivas, cenários ou desejos ancorados nos conhecimentos do presente. “Sobrecarregando” assim o futuro e fazendo esperar muito dele. As publicações das forças aliadas também o faziam abundantemente no final da 2.ª Grande Guerra ao apresentarem o que iria ser a vida em paz. Os artistas são mais ousados na mensagem de mudanças, estéticas e filosóficas, no mundo mas seguem um processo de maturação mais lento e não evidente. É a obra que marca mais e não tanto as justificações apresentadas pelos autores.

Recentemente foi apresentada uma Visão estratégica e um Plano de recuperação para o país. A Visão elaborada pelo Eng. Costa Silva tem o mérito de elencar um conjunto de áreas cujo desenvolvimento em dez anos é suposto poder modificar o nosso país. Uma tarefa gigante para o futuro de Portugal. O Plano é um instrumento do Governo que, beneficiando da Visão, tem um objectivo mais limitado, mas urgente.

No passado recente, planos parciais ou específicos de cariz técnico e político atingiram objectivos relevantes para Portugal nas áreas do ensino, da ciência, da habitação, da saúde, do saneamento básico, da energia e das comunicações, entre outras. A Visão é mais ousada. Mas, na minha opinião, os investimentos intensivos teoricamente produtivos e as novas tecnologias não garantem imediatamente a um país o progresso, social e económico, mais justo e sustentado. Para isso será necessário (e difícil) identificar e colocar em consonância os desejos, valores e características culturais da nossa comunidade tecidos durante séculos. Este pode ser o contributo fundamental das pessoas para uma mudança real.

Frei Bento Domingues (PÚBLICO de 20/9/20) tocou neste ponto quando descreveu o modo como o Papa Francisco elaborou a encíclica Laudato Si: primeiro a contribuição dos cientistas, depois a análise de filósofos e teólogos e, finalmente, a síntese. O conciliar de dimensões complementares. Para o sucesso pretendido a longo prazo é indispensável, na minha opinião, considerar outros tipos de “riquezas” para além da competitividade e da riqueza produzida em ambiente de mercado ou empresarial. Há que fazer uma análise integrada da situação presente e das suas causas. Numa floresta há que ver as raízes e os troncos e não só as folhas.

No livro “Pensar o Futuro”, sobressaio pela originalidade e força o texto abrangente de Lídia Jorge. A escritora não sobrecarrega o futuro com previsões ou certezas. A sua esperança num mundo melhor fica depositada na herança que os humanos receberam e nos inventores do futuro que ainda não nasceram

Portugal não é uma “ilha isolada” e poucos são os países que poderão decidir “construir um futuro autónomo”. Os países nossos concorrentes estarão também a investir na transição digital para serem mais competitivos. Mais importante será o que for original e difícil de ser copiado. Também será pertinente reflectir sobre o que poderá ocorrer, num futuro afastado da epidemia, como resultante de desajustamentos críticos em curso. Um desfasamento decorrente da actuação dos mercados e outros poderes globais que, apoiados na técnica, ultrapassam as fronteiras e as capacidades condicionadas dos governos, sendo um risco para as democracias. Um desfasamento entre o sentido e o tempo da vida humana, com um mercado associado à tecnologia cada vez mais exacerbado e abrangente. Impondo a inovação como um processo permanente e sem limites e explorando (acelerando) o tempo e a privacidade humana. Podendo assim eliminar a estabilidade e o poder dos projectos individuais de vida. Um tempo actual de estagnação de ideias ou soluções diferentes para tentar resolver os problemas sociais e ambientais e melhorar a governança do planeta. Onde o caminho para o futuro parece seguir um túnel que afunila sem percebermos para onde vai. Um túnel em vez de um oceano aberto a alternativas e a novos rumos sem perda do essencial da Humanidade. Talvez ainda se possa evitar um futuro onde o real passe a virtual e o virtual se considere como real, perdendo-se colectivamente o importante “princípio da realidade”. Tentando evitar à Humanidade o que não se evitou ao planeta: danos irreversíveis.

Quanto a livros recentes sobre o futuro, saliento a publicação intitulada “Pensar o Futuro” que, sob a organização de Nicolau Santos (Porto Editora), inclui textos muito interessantes de 14 personalidades nacionais. São apresentadas sínteses de tendências em tópicos actuais e nos conhecimentos científicos e técnicos, com particular incidência na saúde pública, na economia, no trabalho e na educação, entre outros. Mas sobressaio pela originalidade e força o texto abrangente sobre cultura e muito mais, de Lídia Jorge. A escritora não sobrecarrega o futuro com previsões ou certezas. O bosque onde todos nos encontramos não lhe permite ver muito longe (como a todos nós). A sua esperança num mundo melhor fica depositada na herança que os humanos receberam e nos inventores do futuro que ainda não nasceram.

NewsItem [
pubDate=2020-11-23 00:15:00.0
, url=https://www.publico.pt/2020/11/23/opiniao/opiniao/deixemos-futuro-respirar-1934617
, host=www.publico.pt
, wordCount=1150
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2020_11_23_716890992_deixemos-o-futuro-respirar
, topics=[opinião]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]