www.jn.ptjn.pt - 23 nov 00:00

Gerir a informação

Gerir a informação

No início de abril, o jornal "ABC" divulgava os resultados de um conjunto de sondagens realizadas em diversos estados da União Europeia, assegurando que o primeiro-ministro português era aquele que reunia maior confiança dos seus cidadãos na forma como estava a gerir a pandemia.

António Costa contava com o reconhecimento de 75% dos portugueses, Angela Merkel com 63% dos alemães, Boris Johnson com 55% dos britânicos e, entre outros, Pedro Sánchez com 28% dos espanhóis.

Há uns dias, um jornal nacional chamava a manchete a ideia de que "metade dos portugueses não considera adequadas as medidas do Governo".

Um resultado que não terá surpreendido o próprio primeiro-ministro que, há pouco mais de 15 dias, ao apresentar as medidas do estado de emergência, desabafava que "o esforço de equilíbrio do Governo gerou equívocos" assumindo que "a culpa é toda minha. O mensageiro transmitiu mal a mensagem".

Com quase 9 meses de pandemia ativa no nosso país, é difícil não compreender as reservas que cada vez mais cidadãos colocam à forma como o processo vem sendo gerido pelas autoridades públicas, levando, nos casos mais extremos, à contestação de decisões tão difíceis quanto necessárias.

Há, à cabeça, uma inequívoca falta de transparência. A insuficiência e inconsistência dos dados tornados públicos ao longo de todo este período, fazem-nos resvalar para uma recriação do famigerado ministro da Informação iraquiano, Mohammad Said al-Sahaf, durante a Guerra do Golfo. Com a curiosidade, aqui, de que os mensageiros ora clamam vitória, ora apregoam o caos como forma de disciplinar a conduta de terceiros.

Nesse quadro, a impossibilidade de se poder desenvolver investigação rigorosa, o deficiente acesso a dados tão simples quanto o número de testes realizados, o número acumulado de infetados e a sua caracterização por território, ou as capacidades disponíveis das unidades de saúde nas diferentes localizações geográficas, são por si obstáculos à prossecução de políticas mais ativas de prevenção e resposta ao vírus.

A partir daqui, os critérios que sustentam a aplicação de medidas e os resultados que se esperam atingir são deficientemente explicados. A existência de tratamentos diferenciados e de demasiadas exceções penaliza a compreensão e estimula o incumprimento.

Com a iminente vacina a configurar-se como um tónico para a resistência às dificuldades próximas, os verdadeiros resultados advirão, como até aqui, de uma real mobilização coletiva. E, sobretudo, de uma comunicação muito mais clara, no processo e no conteúdo.

*Presidente da Câmara de Braga

NewsItem [
pubDate=2020-11-23 00:00:00.0
, url=https://www.jn.pt/opiniao/ricardo-rio/gerir-a-informacao-13063619.html
, host=www.jn.pt
, wordCount=347
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2020_11_23_2106834927_gerir-a-informacao
, topics=[opinião, ricardo rio, opiniao]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]