jornaleconomico.sapo.ptAna Pina - 23 nov 00:08

Algoritmos desajustados

Algoritmos desajustados

Falta concertar melhor a gestão, recuperar a confiança perdida e não esquecer o País no seu todo. Parece que Portugal fechou e só resta a pandemia. Será que no ADN português só cabe um problema de cada vez?

Hoje apetece-me tocar em alguns aspectos que muita gente lá no íntimo já pensou e que fogem ao politicamente correcto.

O mundo, os países, as sociedades estão pejados de informação irrelevante sobre grande parte dos temas do dia-a-dia e não só, quase diria, de todos os temas. A cada minuto e com fins no mínimo falaciosos “fabricam-se” notícias e/ou opiniões facciosas e retorcidas ampliando a confusão nas nossas mentes. De todo o lado surgem os oráculos de feira, sempre prontos a pintar de muito negro a situação presente.

Portugal é um exemplo vivo. Basta olhar para um telejornal.

Quem no meio deste turbilhão de mentiras, de meias-verdades, de comentários enviesados conseguir um mínimo de lucidez e de equilíbrio, algum distanciamento, acaba por criar um ambiente de conforto, embora perpassado pela ansiedade da incerteza.

A pandemia veio baralhar ainda mais esta situação. Centrando tudo nela, afecta o “chip” de cada um de nós, perturbado que anda pela má carburação dos discos rígidos, algoritmos e chips das nossas instituições mais representativas: Presidente da República (PR), Assembleia da República, Governo, órgãos de Justiça, organismos ligados à saúde, meios de comunicação.

Muitos não resistem a entrar no jogo duvidoso, uns pela negativa, outros pelo exagero, em nada contribuindo de positivo para trazer à sociedade conforto e calma.

Olho para este ambiente com algum desespero e de forma politicamente incorrecta avanço, neste contexto, com um comentário sobre o PR e o Governo.

Presidente da República

1. Ainda não entendi, a tão pouco tempo das Eleições Presidenciais, a razão por que Marcelo Rebelo de Sousa não disse formalmente que vai candidatar-se, ou seja, que está na corrida para Presidente da República.

No meu íntimo “sei”, sempre foi para mim adquirido, desde o primeiro minuto que Marcelo Rebelo de Sousa chegou a Belém, jamais hesitaria em ser candidato a um segundo mandato, a não ser que um tsunami, não consigo imaginar qual, o impedisse. Com selfies e beijocas, no momento presente mais limitadas, há a máscara, o lastro para um segundo mandato está estendido.

Portugal não é os EUA onde por vezes da candidatura ao segundo mandato sai derrota. Mesmo assim é raro. Azar teve Trump, a pandemia trocou-lhe as voltas, pelas posições no mínimo disparatadas que foi tomando e retirou-o do pedestal bem contra a sua vontade.

Porquê esta postura de Marcelo Rebelo de Sousa?

Diz-se que a sua ambição é desmedida, que deseja para a história uma elevada votação em si, maior que a de Mário Soares. Quanto menos tempo de antena para os demais melhor para o ainda não candidato Marcelo Rebelo de Sousa.

Será este o pensamento que norteia Marcelo Rebelo de Sousa? Não coloco aspectos jurídicos. Nesse domínio Marcelo Rebelo de Sousa sabe melhor do ninguém o que anda a fazer. Mas cingindo-se apenas à legalidade em casos como este… alguma ética política fica pela gaveta.

Contudo, entendo bem. Marcelo Rebelo de Sousa não precisa de se apresentar. Está em campanha a custo zero e em ambiente de monopólio, pois na sua qualidade de Presidente em pleno, nem precisa de campanha, está sempre em campanha. Assim continua e comprime o espaço de propaganda das restantes candidaturas. Mas leal não me parece!

Quem pretenderá “atingir” mais com esta sua atitude? Admito que não seja a da ex-deputada europeia Ana Gomes. Tem o seu campo mais ou menos delimitado. Ana Gomes será a segunda candidatura mais votada. Quem será então? Deixo as pessoas conjecturar.

Com a nova arrumação da direita a partir do ambiente vulcânico dos Açores, as dúvidas serão muitas?! Noutros tempos, tempos de liberalismo, os Açores marcaram pontos de primeiro plano na política nacional. Noutros tempos, digo bem.

O Governo

2. O Governo de António Costa não tem tido uma gestão fácil. Este ou qualquer outro que lá estivesse teria sempre dificuldades tremendas em enfrentar a situação de pandemia, ainda mais num país como Portugal, com sérios apertos de natureza financeira e elevada dívida.

Conseguiu sair-se bem na primeira vaga da Covid-19, mas parece ter adormecido um pouco ao sol do Verão.

Diz o Governo que a segunda vaga não mandou carta a avisar da chegada. Chegou antes do previsto. Os CTT andam, de facto, um pouco mal frequentados, pelo menos é o que se ouve por todo o lado e não sei se com o País centrado na pandemia o problema da concessão a privados dos correios, que termina em breve, bem como outras questões importantes, não estão a passar ao lado da governação. É bom que quem de direito esteja atento e a trabalhar em soluções de futuro.

Mas a gestão da segunda vaga da Covid-19 não está a correr nada bem ao Governo. A grande crítica de fundo de que não houve planeamento atempado nos serviços de saúde gruda e colhe consenso alargado, o que isolou o Governo, embora com ruído a mais de certas instituições sempre presentes no palco, quando muitos talvez fossem mais úteis se presentes no serviço ao combate da pandemia.

Não vou entrar no domínio do planeamento da saúde, mas não posso deixar, embora de forma ligeira, de me referir às medidas de apoio às actividades económicas e às pessoas. Penso que tem faltado coerência e qualidade nas medidas. Decis��es pouco amadurecidas na colagem aos problemas.

Por exemplo, ninguém percebeu a decisão inicial de fechar os restaurantes e deixar as grandes superfícies abertas, que se viram com a força toda e já queriam mandar no horário de abertura, seis e meia da manhã! Para além do abuso era sobretudo uma exploração dos trabalhadores, umas horas mais de trabalho sem vencimento.

Não foi uma questão de má comunicação, como disse o primeiro-ministro. Foi antes uma correcção de percurso e ainda bem, pois a decisão era um tiro no pé, mesmo acreditando que não fosse essa a intenção, traduzia-se num benefício das grandes superfícies em detrimento da restauração.

Mas os apoios específicos à restauração – 20% sobre a diferença nas receitas – têm duas grandes limitações. A primeira de natureza técnica e a outra de âmbito – deveria ser mais abrangente e duradoura.

Não consigo entender como os 20% têm por base de incidência um período anómalo, uma parte de tempo de 2020 de receitas zero. Tecnicamente não faz sentido. Devia incidir sobre um determinado período homólogo (por exemplo, a média das 12 semanas finais de 2019). Acho que o Governo não fez cálculos. Porque se o fizesse até veria que os valores a pagar eram baixos, devido à grande fuga na e-Factura.

Mas há modelos de países, nesta matéria, de possível adaptação a Portugal em cujos apoios se contemplam as rendas, comunicações, impostos, etc. A restauração necessita de injecção directa de dinheiro e a fundo perdido que lhe dê alívio de custos permanentes e, sobretudo, maior rapidez no pagamento. Da primeira vaga, nem tudo ainda está pago.

Assim não vamos lá e não se sustentam os postos de trabalho. E se, como li, com a vacina espera-se “uma invasão” de turistas, não haverá estruturas para os receber porque entretanto foram destruídas. Não creio muito nessa invasão, mas algo de moderado poderá suceder.

Por conseguinte, falta acertar as agulhas, concertar melhor a gestão, recuperar a confiança perdida e, cuidado, não esquecer o País no seu todo. Nunca mais se ouviu falar da estratégia para a economia que é fundamental, nem do hidrogénio verde, a não ser de forma negativa. Dos impactos na estrutura económica nada, nem da habitação, nem das ferrovias, nem da reindustrialização. Parece que Portugal fechou, só resta a pandemia. Será que no ADN português só cabe um problema de cada vez?!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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