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Os sonhos da razão. Por Alberto Manguel

Os sonhos da razão. Por Alberto Manguel

Na narrativa de um sonho falta sempre a peculiar verosimilhança dos sonhos, a sua textura e o seu vocabulário próprios, a sua singular identidade. Porque será?

Em 1842, aos 38 anos, Nathaniel Hawthorne anotou num caderno: “Escrever um sonho, fazendo com que se assemelhe ao verdadeiro desenrolar de um sonho, com as suas inconsistências, excentricidades e derivas, mas onde também exista uma ideia principal a atravessar o todo. Até hoje, e o mundo já tem muita idade, nunca se escreveu nada do género.” Assim é. Desde o primeiro sonho de Gilgamesh, há 4 mil anos, até aos nossos dias, o comentário de Hawthorne não falhou. Na narrativa de um sonho, por mais assombrosa ou verdadeira que seja, falta sempre a peculiar verosimilhança dos sonhos, a sua textura e o seu vocabulário próprios, a sua singular identidade. Porque será?

Talvez Hawthorne, que narrou sonhos excecionais — sonhos literários —, não se referisse apenas à inefabilidade dos sonhos, mas também a algo que tem a ver com a natureza da linguagem e da prática de contar histórias. Aprendemos às nossas custas que a linguagem é somente uma aproximação, nunca captando completamente aquilo que pretende dizer. Ao nomear uma coisa ou um estado, ao descrever um lugar ou um acontecimento, o escritor usa a linguagem para compor uma imagética verbal a partir da escolha de uns poucos elementos da realidade apreendida, ou que se imagina apreendida, reconhecendo em simultâneo a incapacidade de abranger o todo em todas as suas fugazes dimensões. Contudo, para estabelecer com o leitor um pacto de confiança mútua, o escritor deve fingir que há exatidão factual e coerência na realidade descrita em palavras. É um procedimento de tal modo enraizado que o escritor muitas vezes usa truques de retórica para disfarçar esta suposta exatidão: por exemplo, evita revelar tudo (“Num lugar da Mancha de cujo nome não quero lembrar-me”), ou finge que não revela tudo (“Tratem-me por Ismael”), ou finge que revela tudo (“Eu chamo-me Teodoro — e fui amanuense do Ministério do Reino”).

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