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Decisões perigosas

Decisões perigosas

Importa ouvir o que nos diz a medicina de catástrofe. Mas estamos num Estado de Direito. Há que respeitar a Constituição.

 Em novembro de 1999, no Reino Unido, Sally Clark foi condenada pelo homicídio dos seus dois filhos. Ambos haviam morrido antes de completarem três meses de vida, sozinhos em casa com a mãe. Para a condenação foi essencial o depoimento de Sir Roy Meadow, reputado professor de pediatria na Universidade de Leeds, que afirmou em tribunal que a probabilidade de duas crianças de uma família de classe média sofrerem de síndrome de morte súbita era de 1 em 73.000.000.

Sally Clark cumpriu cerca de três anos da sua pena de prisão, mas acabaria por ser absolvida em recurso. Antes disso, a Royal Statistical Society já declarara publicamente que a afirmação do médico era, na verdade, um completo disparate, pois tratava ambas as mortes como ocorrências independentes, desconsiderando a possível influência de fatores genéticos ou ambientais comuns suscetíveis de explicar ambas as mortes. O seu comunicado terminava apelando a que para opinar sobre estatística se recorresse apenas a especialistas em estatística.

Serve esta história para ilustrar a importância de uma recolha de informação rigorosa para a tomada de decisões, o que só se faz dando crédito, sobre cada assunto, a quem o estudou a fundo. Num país com tanto amor aos títulos, lembremo-nos de que não existem licenciaturas em tudologia, e de que nenhuma cátedra confere a quem a ocupa o dom da omnisciência. É que a tentação para opinar ao lado é mesmo muito forte, e quem se habitua a falar de cátedra sobre temas que domina muitas vezes aparenta a mesma segurança quando opina sobre assuntos que não domina.

Idealmente, nem olharíamos à pessoa de quem nos informa, escrutinando sobretudo as suas fontes, as referências que suportam as suas afirmações, porque o trabalho sério vale por si, é independente da sua autoria. Mas ninguém tem tempo ou conhecimentos que permitam ler e perceber tudo sobre todos os assuntos, pelo que muitas vezes quem decide não tem mesmo outro remédio senão acreditar que essa triagem já é feita pela comunidade científica. Não há ciência sem contraditório. Quando um tema é consensual dentro da especialidade, aceitemos o estado da arte. Não embarquemos em teorias da conspiração. Não há infalibilidade na ciência. Muito do que hoje temos como certo amanhã já não o será. Hoje, todavia, é o melhor que temos. Logo, em matéria de saúde pública, há que ouvir especialistas em saúde pública.

As decisões querem-se informadas, i.e., baseadas em informação rigorosa. No entanto, a falta de rigor não é o único perigo a evitar. Há um outro perigo a evitar: o de não se atender aos vários lados da questão, como quem usa palas nos olhos. Há, pois, que recolher informação abrangente, que inclua os contributos das várias especialidades relevantes para o tratamento de cada questão. Mesmo numa crise de saúde pública, muitas decisões apelam a uma multiplicidade de conhecimentos. Quando se toma a parte pelo todo, tomam-se más decisões, de que é exemplo recente a de manter em isolamento crianças e jovens em perigo quando são retiradas às famílias, infligindo-lhes um trauma potencialmente muito superior ao risco de contágio.

No presente momento, já se antecipam alguns cenários de medicina de catástrofe. Há já quem trace os critérios que determinarão quem vive e quem morre, em caso de insuficiência de meios de socorro. Se não pertence aos técnicos de aviação a última palavra sobre se é ou não lícito ou eticamente aceitável aterrar uma aeronave numa praia cheia de veraneantes para evitar a morte de quem se transporta, tão-pouco será avisado dirigir recomendações a quem está no terreno e terá de decidir a quem atribuir o ventilador sem antes aferir da licitude de tais recomendações. Há vários séculos que estes dilemas morais são estudados nos planos ético e jurídico. Não nos esqueçamos de ouvir quem sabe. Estamos num Estado de Direito. Respeitemos a Constituição.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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