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Visão | A febre das guitarras está de volta em tempos de pandemia

Visão | A febre das guitarras está de volta em tempos de pandemia

O confinamento imposto em vários países aguçou o apetite pelo instrumento que popularizou Eric Clapton, Jimi Hendrix ou Carlos Santana. As vendas dispararam e Portugal vai na onda

Em 2017, confrontado com a queda das vendas, Eric Clapton parecia rendido. “Talvez a guitarra tenha acabado”, afirmou aquele que é considerado um “deus” do instrumento do rock por excelência. Talvez não seja bem assim. Talvez as notícias da morte da guitarra tenham sido manifestamente exageradas.

Os maiores fabricantes mundiais passaram por graves problemas financeiros – a Gibson chegou a declarar falência, em 2018 –, mas a pandemia do novo coronavírus veio devolver o fôlego perdido à indústria, com a procura a disparar desde que a Covid-19 impôs confinamentos obrigatórios um pouco por todo o mundo. Mais tempo livre abriu caminho a novos hábitos, ou a hábitos esquecidos.

A Fender, que além de Clapton viu as suas guitarras passarem pelas mãos de Jimi Hendrix, David Gilmour, Mark Knopfler ou Bruce Springsteen, prevê fechar 2020 com o maior volume de vendas de sempre. Outras marcas como a Taylor (Taylor Swift, Shawn Mendes, Dave Matthews), a Martin (Elvis Presley, Bob Dylan, John Mayer) e a Yamaha (Carlos Santana, Paul Simon, Billy Corgan), mais viradas para as acústicas, reportam vendas muito acima das estimadas para este ano. E a produção da Gibson (Santana, Clapton, Hendrix, Dylan, Knopfler, Jimmy Page, Angus Young, Slash) não chega agora para as encomendas.

Num relatório publicado no início deste mês, a empresa de estudos de mercado Technavio antecipa um futuro igualmente risonho. Se as acústicas são as principais responsáveis por este ressurgimento da guitarra, em certa medida atribuível à “ampla oferta e custo acessível” em países populosos como a Índia e o Brasil, as elétricas devem ganhar mais peso nos próximos anos.

A “dádiva” do confinamento
À sua escala, o fenómeno parece estender-se a Portugal. Cláudia Alves, 43 anos, comprou uma Yamaha acústica em junho, enquanto estava em layoff. A hospedeira de terra na TAP, natural de Espinho, mantém uma paixão por guitarras “desde a adolescência”, tanto que chegou a comprar “uma baratucha” quando andava na universidade. Nunca aprendeu a tocar, mas ainda a guardava e, durante o confinamento da última primavera, deu-lhe uma segunda oportunidade.

“Aquele tempo foi uma dádiva. Ao ouvir músicas acústicas, a ideia fervilhou ainda mais”, conta Cláudia, que dias depois partiu uma corda. Decidiu então “comprar uma guitarra em condições, um afinador digital e um saco”, num investimento a rondar os 140 euros. Comprometeu-se “a dedicar-lhe uns bons minutos do dia e a procurar tutoriais na internet”, e ainda não descartou a hipótese de se inscrever numa escola de música. “Em menos de duas semanas, já sabia tocar e cantar o Knockin’ On Heaven’s Door, do Bob Dylan”, atira, orgulhosa. Ao fim de quatro meses, soma quatro músicas no seu “repertório”, incluindo uma versão pessoal de Wicked Game, de Chris Isaak, a sua preferida. “Não é questão de disciplina, até porque a obrigatoriedade aborrece-me”, sublinha, a propósito da necessidade de manter o ritmo para continuar a progredir. “É com gosto que o faço. Ainda há dias estava com uma grande neura, peguei na guitarra e libertei-me.”

O renascido entusiasmo por este instrumento sente-se nas lojas. No Salão Musical de Lisboa, as guitarras elétricas entre os €110 e os €250 são campeãs de vendas, com destaque para as Squier, da Fender. “Muitos destes clientes não tocavam e quiseram experimentar”, adianta a lojista Carolina Braz. Na portuense Caffi, mandam as acústicas de linha económica. Segundo Gabriela Caffi, nos últimos meses, as vendas superaram todas as expectativas. “Com o teletrabalho, as pessoas ficaram com tempo para concretizar um sonho antigo”, justifica.

Rui Ribeiro, diretor da loja online Egitana, com sede na Guarda, também confirma um aumento das vendas de guitarras, mas acredita que em boa parte se deveu ao fecho das lojas físicas nos meses mais agrestes da pandemia. Por outro lado, admite que a maior variedade da oferta na internet poderá ter suscitado interesse “até em quem não estava a pensar comprar”.

Fado até aos 80
Músico profissional, Carlos Velez, nascido há 54 anos em Santarém, nunca se tinha separado da “sua” viola, desde os 15 anos. Durante o confinamento, viu-se sem trabalho e aproveitou para testar a guitarra que tinha em casa. “Apaixonei-me completamente. Foi quase como começar de novo”, diz, explicando que a utilização das mãos e dos dedos “é muito diferente” nos dois instrumentos: “Tive de parar com a viola para evoluir mais depressa na guitarra. Mesmo assim tenho perdido muito tempo a adaptar-me a uma nova forma de tocar.”

A mulher dele gostou do que ouviu na guitarra antiga e ofereceu-lhe uma nova. Uma vez por semana, Carlos tem aulas com um professor amigo, que numa hora dá-lhe “trabalho para um mês”. O músico de Santarém sonha com um futuro ligado ao fado, seguindo as pisadas do pai, seu homónimo, que acompanhou à viola nomes como Maria da Fé, Nuno da Câmara Pereira ou Cidália. “No fado, consigo durar até aos 80 anos. Não preciso de andar com colunas, tripés e caixotes às costas”, assinala, pragmático.

A reconversão será lenta. Carlos diz já sentir-se “à vontade” numa dezena de fados, mas garante que antes de saber 300, “em 12 tons diferentes”, não vai ousar entrar numa casa de fados. Para lá chegar, avança, vai precisar, no mínimo, de mais cinco anos: “Estou agora a entrar no Secundário e tenho de tirar o mestrado.”

Nas escolas de música, a pandemia teve um impacto misto. Se alguns alunos habituados a aulas presenciais não se adaptaram ao ensino online e acabaram por desistir, outros inscreveram-se para aprender guitarra à distância, informam desde a Academia de Guitarra do Porto e da Academia do Rock, em Lisboa.

Aos 49 anos, o madrileno Victor Orgaz, desde 2016 em Portugal, é um principiante. Entrou em junho para a Academia de Música de Telheiras e anda agora a tentar descobrir de onde vem o barulho de bateria que ouve em casa. “Estou à procura de velhotes como eu para formar uma banda e desfrutar desta loucura”, anuncia, divertido. “Um desejo de juventude”, assim lhe chama, que passa por conciliar “amigos e cerveja” com o som de uma bela guitarrada. Quem o pode levar a mal?
*com Maria Inês Rodrigues

Milhões em caixa
Os leilões de guitarras famosas também estão a merecer forte procura. Eis alguns negócios dos últimos meses

Cloud
Prince

A guitarra personalizada Blue Angel Cloud 2, que andou anos em parte incerta, foi vendida em junho por 504 mil euros. Entre 1984 e 1993, Prince fez dela uma das suas preferidas, incluindo na digressão do álbum Purple Rain.

Sunburst
Jimi Hendrix
Este exemplar da marca japonesa foi utilizado por Hendrix entre 1962 e 1964, antes de se tornar famoso. Deu-a a um amigo, que a preservou até morrer, no ano passado. Sem cordas, foi arrematada por 183 mil euros, em agosto.

Martin
Kurt Cobain
Foi com esta guitarra que o líder dos Nirvana gravou, em 1993, o álbum Unplugged. Em junho, ao ser vendida por 5,4 milhões de euros, tornou-se a mais cara de sempre, superando a Fender de David Gilmour, que se ficou pelos 3,55 milhões de euros, em 2019.

Bartell
George Harrison
Fez parte da coleção do guitarrista dos Beatles durante quase 20 anos, mas não há certezas sobre a sua participação em álbuns da banda de Liverpool. Talvez em duas faixas do “Álbum Branco” (1968). Foi vendida, na semana passada, por 262 mil euros.

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