www.jornaldenegocios.ptjng@negocios.pt (Jornal de Negócios) - 22 nov 18:20

Estado de Confusão

Estado de Confusão

Perguntaram recentemente ao líder social-democrata se estaria mais perto de ser primeiro-ministro. Rui Rio, um pouco a medo, disse que sim. Surpreendentemente, ou talvez não, isso poderá vir a acontecer mais cedo que se esperaria.

De um estado de emergência que uniu quase todos, passámos para um estado de confusão que não congrega ninguém. Até os que formalmente aprovam as medidas, logo aparecem a criticá-las. A ideia com que ficamos é a de que a situação está descontrolada e falta racionalidade nas decisões. Se no início se percebia que a novidade justificava a hesitação e mesmo o erro, agora já não há margem para experimentalismos ou para a aplicação de critérios de conveniência política. Ninguém esconde que a situação é difícil e se torna impossível agradar a todos. O que não é aceitável é saber que o primeiro-ministro diz uma coisa hoje e faz outra amanhã ou perceber que se está a legislar “à medida” de acordo com as conveniências partidárias de cada momento recorrendo a argumentos que não combinam com a realidade. Em momentos de crise como aquele que vivemos, as pessoas querem sentir que os decisores mantêm a autoridade e que as decisões são racionais. Pois é exatamente isto que o Governo tem vindo a malbaratar. A autoridade e a racionalidade.

Desde o início da pandemia, tivemos meses de concertação de posições entre Marcelo e Costa. Embora causando desgaste no eleitorado de ambos, a verdade é que se esperava este comportamento dos mais altos representantes do Estado. Unidade na ação e extrema cautela na comunicação. Agora, quando tudo parece ainda mais complicado e a capacidade de resposta do Estado está posta em causa, seja na saúde, seja na economia, parece que encontraram um novo caminho: descentralizar. Em linguagem popular diríamos que querem sacudir a água do capote. Vão passar para os municípios algumas das decisões que não têm coragem de tomar. Apesar de, genericamente, termos hoje autarcas com sentido de responsabilidade e com capacidade de trabalhar em colaboração com os municípios vizinhos, a verdade é que isto não é mais do que a capitulação de um governo cada vez mais fraco e desnorteado perante as dificuldades. Como o ministro da Economia não tem coragem para mandar fechar grandes superfícies comerciais, pois que seja o presidente da câmara a fazê-lo. Como o primeiro-ministro não tem condições para aprovar a realização de um congresso partidário quando proibiu todo e qualquer ajuntamento de mais de seis pessoas, pois que seja o presidente da câmara a assumir essa responsabilidade. E assim por diante seja com os restaurantes, com os centros de saúde, com as escolas, com os eventos culturais ou com tudo o que seja suscetível de causar desconforto. Ora isto não é governar. É tentar sobreviver o tempo que for possível. Sabemos que não poderá durar muito.

E se hoje já é possível sentir que o descontentamento está a chegar às ruas, o que será dentro de poucos meses quando as moratórias terminarem e os “lay-off” se transformarem em desemprego. Mais uma vez o exercício da autoridade e a gestão da crise feita com racionalidade serão exigidos a quem governa. Mas este governo parece não ter condições para o garantir. Por razões táticas encostou-se à sua esquerda e ofereceu a partidos oportunistas um orçamento que sabe ser impossível de cumprir. Acresce que esta perigosa colagem se fez sacrificando, sem necessidade, uma relação à sua direita que António Costa sabe ser imprescindível para ultrapassar os grandes bloqueios que o país tem hoje e que se irão certamente agravar no futuro. Não se peça portanto a Rui Rio que, quando os sinos começarem a dobrar, seja ele a resolver um problema que não criou e a condenar o PSD (ou o centro-direita) a voltar a salvar pela enésima vez o país da bancarrota a que governos socialistas o conduziram. Basta que António Costa continue a não saber para onde quer ir e permitir que o estado de confusão seja renovado a cada 15 dias.

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