visao.sapo.ptvisao.sapo.pt - 22 nov 13:00

Visão | As carraças preferem pessoas a cães, quando a temperatura aumenta

Visão | As carraças preferem pessoas a cães, quando a temperatura aumenta

Os investigadores queriam obter dados mais definitivos sobre como as mudanças climáticas podem elevar o risco de infeções pela chamada febre da carraça

Parece um truque de ilusionismo. Primeiro, começam por colocar um cão, de porte médio, numa caixa de madeira com cerca de 90 cm de altura e 60 cm de largura. Depois, uma mulher jovem, vestida como umas calças de ganga e uma camisa de manga curta, e de máscara cirúrgica, entra numa caixa idêntica. Logo a seguir, vemos uma dezena de carraças a serem introduzidas num tubo de plástico transparente que liga as duas caixas. E termina aí o curto vídeo, deixando-nos a imaginar o que aconteceu posteriormente.

A experiência foi repetida várias vezes, com intervalos de vinte minutos. O objetivo era observar se as carraças, que procuram hospedeiros para se alimentar com base no cheiro, preferem cães ou pessoas. De início, a temperatura ambiente era de cerca de 23,3 graus; mais tarde, ela foi aumentada até aos 37,8. E os investigadores constataram que, quando o ar ficava mais quente, as carraças tinham 2,5 vezes mais probabilidade de optar pela mulher.

“O nosso trabalho demonstra que, quando o tempo fica quente, devemos estar muito mais vigilantes para infeções de febre escaro-nodular (a chamada febre da carraça) em humanos”, disse Laura Backus, veterinária e doutoranda de epidemiologia na Escola de Medicina Veterinária da Universidade Davis da Califórnia, que liderou o estudo apresentado na Convenção Anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene (ASTMH).

Já existiam evidências de investigações anteriores em como as carraças podem ser mais agressivas com as pessoas em climas quentes. Laura Backus e os seus colegas queriam obter dados mais definitivos sobre como o aumento da temperatura pode elevar o risco de infeções por febre escaro-nodular. Para tanto, a veterinária não hesitou em ser ela própria cobaia nos testes, submetendo-se às picadas dos insetos que a procuraram mais do que ao cão.

“As descobertas desta experiência de laboratório simples mas eficaz aumentam a evidência da crescente relação entre as mudanças climáticas e o seu impacto na saúde”, afirmou, por sua vez, o presidente da ASTMH, Joel Breman. “As mudanças climáticas estão a ser tão rápidas que é fundamental acompanhar as muitas maneiras que elas podem alterar e intensificar o risco de uma ampla gama de doenças infecciosas, para que estejamos melhor preparados para diagnosticar, tratar e prevenir.”

A chamada febre da carraça, que os norte-americanos conhecem como febre das Rocky Mountains, é uma doença causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida pela picada de carraças.

A doença é tratável com antibióticos se for detetada na primeira semana de infeção, mas assim que ela se instala, a taxa de mortalidade pode ultrapassar os 20 por cento. As complicações podem incluir vasos sanguíneos danificados, inflamação do coração, pulmões ou cérebro, e insuficiência renal.

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