www.publico.ptdavid.pontes@publico.pt - 21 nov 22:53

A covid não é igual para todos

A covid não é igual para todos

Tal como na questão da Festa do Avante! é muito mais a vontade de atacar o PCP, e indirectamente o Governo, que move os críticos e não uma genuína preocupação pela saúde pública.

Em Março, o medo nivelou tudo pela mesma medida. Tudo em casa, todos os que podiam em teletrabalho, tudo sem aulas, quase tudo fechado. Foi dessa forma que, num primeiro embate, Portugal conseguiu arranjar margem para achatar a curva e levou mesmo alguns a falar de “milagre”.

Mas o milagre para a saúde pública no imediato é a tragédia para a economia a prazo e, desde então, Governo e Presidente da República têm procurado trilhar o pedregoso caminho de tentar equilibrar as duas necessidades. A especificação das medidas do estado de emergência deste sábado foi mais uma etapa nesse caminho, especialmente quando, revelando aprendizagem, passa a dividir o país por quatro níveis de risco.

A ameaça da covid-19 não tem de ser igual para todos, quando claramente há graus diferentes de contágio conforme os concelhos onde nos encontrarmos. O mapa, que vinha sendo pedido por alguns especialistas de saúde pública, permitirá gerir com maior ponderação as restrições, deixando respirar onde é possível e apertando onde há necessidade. É esta a gestão a que nos temos de habituar.

E a preocupação com a covid parece também não ser igual conforme se trata de um congresso de um partido político ou de um espectáculo musical. Se fosse, aqueles que se põem em fila para criticar o PCP pelo seu congresso há muito que deveriam ter levantado a sua voz, por uma questão de coerência, contra os concertos que estão marcados em grandes salas para as mesmas datas da reunião dos comunistas. Tal como na questão da Festa do Avante! é muito mais a vontade de atacar o PCP, e indirectamente o Governo, que os move e não uma genuína preocupação pela saúde pública.

António Costa respondeu a esta questão citando a lei do estado de emergência. É ela que determina, e bem, que a situação de excepcionalidade​ para a democracia não inclui a paralisação da actividade política: “As reuniões dos órgãos estatutários dos partidos políticos, sindicatos e associações profissionais não serão em caso alguns proibidas, dissolvidas ou submetidas a autorização prévia”, diz o diploma.

Só mesmo o combate político e uma leitura enviesada permite a Rui Rio ter dito nas redes sociais que a lei “não diz que o congresso não pode ser adiado e, muito menos, proíbe o Governo de determinar que ele se tenha de realizar por videoconferência”. Não diz, não. Nem isso nem que as autoridades estão impedidas de obrigar todos os congressistas a vestir de laranja. O que diz é que não há lugar a proibição ou autorização prévia. Só custa ler quando não queremos mesmo ver.

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