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Sim, Senhora Ministra – ou como comunicar em tempo de pandemia

Sim, Senhora Ministra – ou como comunicar em tempo de pandemia

Senhora Ministra, sei que enfrenta desafios que certamente nunca imaginou possíveis. Sei que muita gente a critica pelas opções que tem tomado no combate à pandemia. Não vou ser mais um a fazê-lo pois considero-me um leigo em matéria de saúde pública e tudo o que dissesse cairia no domínio do ″achismo″.

Senhora Ministra, sei que enfrenta desafios que certamente nunca imaginou possíveis. Sei que muita gente a critica pelas opções que tem tomado no combate à pandemia. Não vou ser mais um a fazê-lo pois considero-me um leigo em matéria de saúde pública e tudo o que dissesse cairia no domínio do "achismo".

Sei também que muita gente a critica pela forma como o Ministério da Saúde e os seus serviços têm comunicado com os portugueses. Não vou ser mais um a fazê-lo pois, com tanta crítica, uma a mais de nada serviria. Mas a verdade é que, ao contrário da área da saúde, sei algumas coisas de comunicação. E, para bem de todos os portugueses, atrevo-me, não a censurá-la, mas a dar-lhe algumas sugestões sobre como comunicar.

O seu ativo mais importante em termos de comunicação é a credibilidade. Se as pessoas deixarem de acreditar naquilo que a Senhora Ministra diz, a mensagem deixará de ser ouvida, mesmo que o conteúdo seja de relevância máxima. E há algumas coisas que deve (ou, eventualmente, não deve) fazer para preservar esse património de confiança.

Por exemplo, não ajuda nada vir-se a saber que os registos da DGS contêm informações sobre homens grávidos ou doentes covid com 134 anos de idade - porque qualquer cidadão fica a pensar que quem erra nas pequenas coisas também pode errar nas grandes. E aí, Senhora Diretora-Geral da Saúde, não vale a pena dizer que "os dados de vigilância epidemiológica não são perfeitos" porque isso não vai dar confiança aos portugueses. Deveria é dizer que é inadmissível uma coisa dessas ocorrer e que os seus serviços tudo farão para que não se repita.

Também não ajuda nada incentivar a população a vacinar-se contra a gripe sazonal e chegarmos a esta altura e não haver vacinas suficientes. Não se esqueça de que o seu principal ativo do ponto de vista comunicacional é credibilidade. Não a desbarate e, se possível, faça alguma coisa para a reforçar. Por exemplo, não deixando totalmente nas mãos dos órgãos de comunicação social dar palco aos cientistas na análise da situação pandémica.

A segunda grande recomendação que lhe faço é de natureza emocional. A par da credibilidade - que se consegue pela via racional - há que ganhar o coração dos portugueses. Para isso tem de mostrar que é uma líder no combate à pandemia e não uma "simples" ministra. Alguém com capacidade para agregar todos os recursos e vontades, atuando com rapidez e não a reboque dos acontecimentos. Porque uma coisa é verdade: já todos descobrimos que o milagre português da primeira vaga não se deveu a si nem ao seu Serviço Nacional de Saúde, mas ao comportamento dos portugueses que, por medo, se autoconfinaram ainda antes de o Governo os mandar para casa. E também essa imagem que passa de ser ideologicamente contra os serviços de saúde privados não ajuda nada. Porque até pode não ser verdade, mas a perceção que uma grande parte da população tem é exatamente essa.

Uma última dica: é fundamental clareza nas mensagens - e aí convenhamos que o Senhor Primeiro Ministro não tem ajudado nada. Less is more, ou seja, evite comunicar muitas coisas ao mesmo tempo, concentre-se naquilo que é essencial e deixe aos especialistas em comunicação passar os detalhes. A si compete-lhe "apenas" comunicar bem, escolhendo, dentro do muito que tem para dizer, aquilo que vai impactar os portugueses, persuadindo-os a atuarem de acordo com o que se deseja em defesa da saúde pública.

Muitas outras coisas poderia dizer - a começar no timing das mensagens e a acabar numa eficaz segmentação das audiências - mas o espaço que tenho para esta crónica não me dá essa possibilidade. Se me permite, vou dar-lhe uma última sugestão: evite que os portugueses fiquem a pensar que as medidas de confinamento dos próximos fins de semana são (também!) tomadas em função da realização do congresso de um dado partido político cujo voto é necessário para viabilizar o Orçamento do Estado. Porque, provavelmente, até poderá nem ser verdade. Mas, como os romanos já bem sabiam há 2 mil anos, à mulher de César não basta ser honesta.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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