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Fadiga da pandemia: é preciso educar para a saúde e não baixar a guarda

Fadiga da pandemia: é preciso educar para a saúde e não baixar a guarda

Tudo continua a ser incerto e não sabemos quando poderá melhorar. E a incerteza mói, causa ansiedade, medo e mal-estar, exigindo de cada um de nós uma grande capacidade de adaptação.

A COVID-19 está a exigir muito de nós e já se fala em fadiga da pandemia, facto comprovado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que revela que o cansaço da pandemia atinge 60% da população.

Durante meses a fio todos fizemos, e continuamos a fazer, um esforço para manter os comportamentos de protecção, como as máscaras e o distanciamento social. Fomos avançando, uns com mais cautela do que outros, e sentimos necessidade e uma ligeira segurança para retomar algumas actividades, como o trabalho e as aulas presenciais. Neste momento, estamos numa situação agravada da pandemia, como nunca estivemos, e a incerteza ganha mais força, deixando a dúvida se realmente vai ficar tudo bem. Para muitas pessoas não vai mesmo, sobretudo para quem perdeu alguém ou perdeu o emprego ou viu reduzida a possibilidade de obter rendimentos suficientes para sustentar a sua família.

Agora, andamos aos sobressaltos, com quarentenas e isolamentos profilácticos, sentimo-nos cansados, controlados. Mudamos rotinas mais uma e outra vez, ao fim-de-semana temos de ir ao cinema às 11h da manhã e almoçar fora já não está no horizonte de muitas pessoas há muito tempo.

A verdade é que, tudo continua a ser incerto e não sabemos quando poderá melhorar. E a incerteza mói, causa ansiedade, medo e mal-estar, exigindo de cada um de nós uma grande capacidade de adaptação. Para muitas pessoas, este cenário sem fim à vista causa desmotivação e pensamentos de derrota, como: “Não vale a pena tantos cuidados se estamos outra vez no mesmo”.

Na verdade, já não se aguenta tantas limitações, álcool-gel e máscaras e nem sequer podemos sair ao fim de semana a tarde, justamente naqueles dias que para muitas pessoas representavam o desligar do trabalho. Tudo isto gera um sentimento de sobrecarga, um cansaço da hipervigilância acerca da desinfecção, do uso de máscara, das restrições e das inúmeras alterações na nossa vida e gera a fadiga da pandemia. O desânimo, que pode surgir como resultado desta situação, pode gerar consequências sérias, incluindo a desvalorização da gravidade do vírus, a indiferença sobre a necessidade de protecção e menos motivação para seguir os comportamentos de protecção.

Para aumentar as dificuldades, as autoridades de saúde mudam as suas orientações com frequência tentando ajustar-se ao evoluir da pandemia, ou procurando corrigir medidas que entretanto percebem que não funcionam. Mas esse tipo de comunicação com a sociedade já se revelou ineficaz, sendo utilizados termos e incoerências que dificultam a adesão das pessoas. Já poucas pessoas vêem os relatos diários da directora da Direcção-Geral de Saúde (DGS). A acrescentar ao que já tem sido bastante complexo, surgem movimentos contra as medidas de protecção e a informação sem base científica, que confundem e iludem quem está a tentar fugir à contaminação do vírus e a proteger os seus.

Embora com dias melhores e outros piores, algumas pessoas conseguem adaptar-se melhor do que outras e continuam a manter-se funcionais, sendo que o reflexo deste cansaço geral é mais grave naquelas pessoas que estão a sofrer com o impacto psicológico da pandemia e que sentem que as exigências desta situação persistente estão a ultrapassar as suas forças e a sua capacidade de lidar com tudo isto. Muitas encontram-se em situação limite e precisam verdadeiramente de ajuda.

Facto é que a saúde física e psicológica de todos nós está em risco e no imediato é preciso mobilizar as pessoas para não desistirem de combater o vírus, mantendo os comportamentos de protecção. A mensagem que as autoridades sanitárias estão a tentar passar, não tem sido eficaz, é preciso deixar claro que nós somos a principal parte da solução e que se as pessoas deixarem de ter cuidados podem ser contaminadas e gerar uma cadeia de contaminação que, em alguns casos, pode levar à morte.

A longo prazo, a solução passa pela educação para a saúde, em concreto, para os comportamentos que promovam o bem-estar físico e psicológico, o autocuidado e o respeito pelo outro.

Proibir ou impedir pouco resolve, é essencial dar recursos às pessoas para que possam adaptar-se às situações difíceis e para criarem formas alternativas de se manterem saudáveis perante uma situação limite, sempre com a intenção de que esta aprendizagem perdure para a vida. São exemplos, identificar como podemos manter os contactos sociais respeitando as regras, promover a gestão emocional e a identificação de actividades que gerem prazer e bem-estar, ajudar as pessoas a compreenderem quais são os comportamentos que as prejudicam e a aumentarem aqueles que lhes fazem sentir-se mais competentes e as deixam mais fortes, gerando esperança e optimismo. Igualmente importante é ajudar as pessoas a reconhecerem em si e nas pessoas próximas os sinais de cansaço e de desmotivação que geram descuido. Depois é preciso aceitar e ajustar os comportamentos a que somos obrigados com aqueles que nos mimam, gerando algum equilíbrio e bem-estar.

Uma forma de fazer chegar estas ideias a cada população específica, atendendo às suas crenças e características próprias é serem transmitidas por pessoas e canais em quem confiam, de forma concertada e coerente. Ou seja, para os jovens pode ser um influencer, um jogador de futebol, para os mais velhos a paróquia ou a junta de freguesia. Sendo claro que para que os mensageiros possam transmitir a forma de actuação correcta precisam recebê-la através de uma fonte fidedigna, neste sentido, o contacto com as autoridades de saúde revela-se importante. Podem até começar por transmitir aos mais novos e aos mais velhos que pedir ajuda não é vergonha ou fraqueza e que qualquer um de nós pode ter dificuldades em lidar com as exigências deste momento que gostaríamos que terminasse rápido.

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