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Portugal Fashion chega ao fim com “chamada de atenção para os tempos que vivemos”

Portugal Fashion chega ao fim com “chamada de atenção para os tempos que vivemos”

Depois de três dias, a edição marcada pelo distanciamento social e reinvenção dos designers chega ao fim. No último dia, foram as mensagens das colecções de Júlio Torcato, Hugo Costa e Luís Onofre que ecoaram mais alto. Os designers falam das inspir

Chegou ao fim, neste sábado, a 47ª edição do Portugal Fashion, que celebra 25 anos. O último dia do evento contou com mais espectadores convidados, mas mantém-se ainda muito distante da antiga normalidade. Foram várias as alterações sentidas nestes três dias, da readaptação dos desfiles com a emissão online, à imposição do distanciamento social. Também o acesso aos bastidores foi dificultado, por restrições devido à covid-19. 

Ainda na rua, junto à Alfândega do Porto, Helena Sarmento, modelo da agência Face Models, revela ao PÚBLICO que o ambiente "está completamente diferente”. “Só tiramos a máscara mesmo para maquilhar”, destaca. Há “muito menos pessoas”, já que “as influencers e a maioria dos fotógrafos" ficaram de fora do evento. A modelo sublinha a calma irregular no funcionamento das preparações dos desfiles: “não há aquela correria do costume, e a ansiedade, é como se fosse uma coisa normal”. 

Com calma, arrancou o último dia do Portugal Fashion, marcado pela crítica política encenada por Júlio Torcato, a mensagem de sensibilização de Hugo Costa, e a homenagem de Luís Onofre à liberdade da natureza.

A mensagem política de Júlio Torcato

O designer apresentou a sua colecção através da encenação de um comício político, no qual um actor declamava para uma audiência de bustos de plástico e alguns modelos. "É uma chamada de atenção para os tempos que vivemos a nível político, social, financeiro e, sobretudo, para o controlo das grandes corporações da Internet que nos estudam e dão aquilo que queremos ouvir”, explica o criador ao PÚBLICO. “Muitas vezes não ouvimos o que estamos a ouvir, consumimos muito rápido e não pensamos no que ouvimos. Isso é a verdadeira manipulação.”

PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA Fotogaleria Manuel Fernando Araújo / LUSA

Já na apresentação dos seus 30 anos de carreira sentiu “um vazio em fazer desfiles convencionais”, conta. Partiu, então, na aventura de “apresentar algo que extravasasse o normal da moda e que tivesse sempre uma mensagem”. Começou com um desfile de sensibilização para os animais em vias de extinção, “File n.º001 Wake up” e, agora traz-nos “File n.º002”, brinca, uma crítica sob a forma de “comício político ao contrário”. 

“Quando o discurso demagógico e manipulador começam, os modelos transformam-se em autómatos, vestidos com roupa normal misturada com pelo menos uma peça em plástico.” Assim, Júlio Torcato quer mostrar que quando as pessoas deixam de pensar por elas próprias, “transformam-se verdadeiramente em manequins de plástico” manipuláveis. “Quando não se pensa, é-se um ser sem conteúdo que delegou as suas decisões e o seu pensamento a um indivíduo manipulador”, continua.

Em parte, a inspiração deve-se à reflexão que a pandemia lhe permitiu. Reconhece a tendência crescente de marcas trabalharem com causas, como a crise climática e a sustentabilidade, e garante que “a pandemia veio potenciar isso tudo”. Em termos económicos, sentiu o impacto da crise com algumas quebras, “o modelo de negócio tradicional fechou, teve de confinar”, relembra. No entanto, notou um “crescimento interessante” no comércio online que suscitou a necessidade de “repensar a forma como se conecta emocionalmente com o consumidor final” pois “só querer vender não basta”. Para Júlio Torcato, a chave estratégica está em transmitir valores, passando uma mensagem e encontrando a voz da marca, com a qual os consumidores se possam relacionar.

Contudo, apesar do desenvolvimento tecnológico, “falta a ligação sensorial, do tacto e da emoção” nesta edição do Portugal Fashion, salienta, “sentir o movimento é diferente de sentir num ecrã”. “[Antes] era o culminar de um trabalho de seis meses numa apresentação com público à volta, podia-se sentir esse calor. Agora está mais frio e vazio”, descreve. Ainda assim, vê o lado positivo na “reinvenção de comunicação” entre os designers

Hugo Costa quer ajudar a “tornar o mundo um bocadinho mais bonito"

Não trouxe uma, mas duas colecções “completamente díspares” ao parque de estacionamento da Alfândega: a de Outono/Inverno, que não chegou a apresentar em Março, e a de Primavera/Verão. A primeira tem “um tema mais violento” e foi inspirada no filme Green Street Hooligans — a história de um rapaz que muda de cidade e se começa a relacionar com pessoas violentas, tornando-se violento —, explica o criador. Já a segunda é influenciada por Desmond Doss. “Foi o primeiro objector de consciência, mas não deixou de ser um militar, em ambiente de guerra, que, rejeitando o uso de armas, salvou muitas pessoas”, contextualiza.

PÚBLICO - Foto José Coelho / LUSA

Apresenta, então, uma colecção Primavera/Verão “mais poética do que as anteriores”, com uma referência de “consciencialização para o momento que estamos a viver, para as pessoas tentarem tornar o mundo um bocadinho mais bonito”, reflecte. “Preocupa-me mais a visibilidade que a extrema-direita está a ter neste momento em Portugal, do que a pandemia em si”, afirma, explicando a preocupação que está espelhada nas suas peças. 

PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA PÚBLICO - José Coelho / LUSA Fotogaleria José Coelho / LUSA

Para o criador “foi muito emocionante ver aquelas pessoas que poderiam sentir receio, com coragem de continuar a assistir e a apoiar”, embora tenha sido uma reaprendizagem “mais dura” no evento. Relembra que celebra uma década de participação no Portugal Fashion e “parece que é a primeira vez”. “Não posso dizer que foi tão especial como a primeira, mas foi muito especial”, compara.

Não sendo diferente dos restantes criadores, também Hugo Costa foi afectado pela crise. “Nós somos designers de autor”, observa. “Deixámos de fazer apresentações, tivemos de reajustar o negócio e, no meu caso, foi um assumir que ‘OK, temos de recomeçar’.” Como estratégia de recuperação, poderia “abrir uma loja online amanhã”, mas não é isso que pretende, explica. Prefere a “nulidade” à precipitação, pois sente que a pandemia, para muitas pessoas, serviu para “precipitar passos”. “Eu quero criar um projecto digital que seja auto-suficiente, e que traga rentabilidade”, refuta, “para vender uma peça por mês não me parece razoável”. Assim, decidiu focar-se nos serviços e na restruturação da “distribuição de trabalho” dentro da equipa.

A “liberdade” de Luís Onofre inspirada num colibri

No desfile do criador Luís Onofre, que aconteceu no cais junto ao rio, as atenções estão focadas nos pés das modelos, elevadas por uma plataforma, com a colecção “Freedom”. Tem como inspiração “a liberdade”, conta o designer de calçado: “Foi um simples pássaro, um colibri, que me obrigou a repensar toda a colecção de uma forma alegre e positiva para os tempos difíceis que aí vêm.” 

PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA PÚBLICO - Manuel Fernando Araújo / LUSA Fotogaleria Manuel Fernando Araújo / LUSA

O autor fez uso de materiais “como a camurça e peles sustentáveis”, com “muitas variantes de cor e de salto”, numa linha “dedicada à natureza”. Para tal, “foi importante usar materiais e construções eco-friendly”, ressalva.

“É tão estranho” apresentar uma colecção nas condições desta edição, repara, “falta aqui qualquer coisa, é a cereja no topo do bolo que falta”, conclui. Em Março, o evento foi cancelado no dia em que apresentaria o desfile, e, portanto, já estava “preparado para a eventualidade de isso acontecer novamente”, conta. “Felizmente não aconteceu e acho que foi muito pacífico com as normas de segurança todas respeitadas ao pormenor”, avalia.

Com o confinamento, ganhou “muito tempo” para estimular o lado criativo e “colmatar muitos erros que inicialmente estariam presentes na colecção”, revela. Contudo, também a sua marca sofreu quebras. “Na moda todos sentimos [o impacto da crise], quem disser o contrário é um felizardo”, constata. Na dificuldade dos tempos que correm, reconhece “a sorte de ter feito a nova plataforma da loja online em Janeiro”, o que permitiu compensar algumas perdas nas lojas físicas. Assim, “o próximo passo é de facto o [comércio] online”, já que “teve um aumento de quase 120%” desde o início da pandemia. Luís Onofre aponta como “é admirável” a marca conseguir vender, “em tão pouco tempo”, um produto que “deve ser experimentado e ter a emoção de vê-lo fisicamente.”

O último dia do evento, que começou com a apresentação de Marques'Almeida no museu WOW Porto - The World of Wine, em Gaia, contou ainda com um desfile pré-gravado de Alexandra Moura com o tema “Substrato”: uma viagem à essência da marca para a revigorar com a actualidade. O vídeo da criadora esteve em transmissão contínua durante o Portugal Fashion, no cubo instalado à entrada. O evento terminou com o desfile da linha Outono/Inverno de Alves/Gonçalves, no cais, iluminado pelos reflexos do rio Douro.

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Além disso, deu-se também a mostra Shoes + Bags, com as marcas Esc, Rufel e Sanjo, e o Bloom Contest, que premeia dois jovens criadores emergentes. Os vencedores, Maria Carlos Baptista e Marcelo Almiscarado, vão poder realizar um estágio remunerado num valor global aproximado de seis mil euros, apresentar as suas colecções em duas edições do Portugal Fashion, no espaço Bloom, e receber um incentivo financeiro de quatro mil euros para desenvolvimento das colecções (dois mil por estação).

Texto editado por Bárbara Wong

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