eco.sapo.ptDiogo Queiroz de Andrade - 18 out 14:42

Tecno-burros

Tecno-burros

O facto de o Governo acreditar que uma aplicação de smartphone deve ser tornada obrigatória para combater um problema social é exemplar da forma leviana com que a política entende a tecnologia.

Depois da apresentação da ideia peregrina de António Costa sobre a obrigatoriedade da app Stawayay Covid, já muito foi dito: a implicação constitucional e o seu impacto na liberdade já foram devidamente dissecadas, e também já não é preciso explicar que esta aplicação é por natureza contrária a uma eventual obrigatoriedade, porque alguns dos seus responsáveis já o fizeram a contento. O que ainda não foi devidamente discutido é o que está na origem deste pensamento bacoco que põe nas mãos da tecnologia a solução imediata para os problemas e as consequências sociais desse entendimento.

O que impressiona é, por um lado, a ignorância política sobre o risco de aplicar soluções tecnológicas genéricas a problemas de governação social, e por outro o desconhecimento sobre o país que se governa.

Presumir que a propriedade de um smartphone equivale a saber lidar com a tecnologia é o mesmo que esperar que todos os possuidores de canetas saibam escrever romances com a síntese e riqueza vocabular apropriadas à diversidade linguística do português. Pior, presumir que todos temos telemóveis capazes de utilizar devidamente esta app e que os elementos das forças policiais seriam capazes de efetivar este comportamento é algo tão risível que seria de esperar apenas numa conversa inconsequente numa qualquer rede social, não num governo responsável.

Aliás, há neste Governo um secretário de estado para a Transição Digital. Ele foi ouvido nesta questão? E o que disse? Ou, como se tratava de ‘uma cena para telemóveis’, o círculo próximo do primeiro-ministro achou que podia decidir sem ele? Do outro lado da bancada não estamos melhor.

A diatribe de Rui Rio no Twitter sobre a Stayaway Covid revelou penosamente quão longe de entender estas questões estão os partidos que dominam o espectro político. Em resumo, a nossa classe política espera que os portugueses estejam devidamente informados sobre as questões tecnológicas sem que:

  • a) lhes tenha sido proporcionado esse ensinamento, de modo formal ou informal;
  • b) eles próprios entendam minimamente do que estão a falar;
  • c) as estruturas do Estado tomem decisões conscientes sobre a utilização para o bem comum dessas mesmas tecnologias.

Há sete anos, Evgueni Morozov escreveu um livro presciente sobre o tecno-solucionismo. Graças à Fundação Francisco Manuel dos Santos, veio a Portugal explicar as suas ideias – que infelizmente não terão recebido políticos suficientes nas bancadas com disponibilidade para ouvir e entender do que ele estava a falar. E ele referia-se precisamente a esta ideia de que a tecnologia é a ferramenta que tudo resolve, especialmente na esfera pública, sem consideração pelas consequências dessas opções. É o mesmo argumento que levou as autoridades canadenses a entregarem à Google a gestão de uma cidade e algumas forças policiais americanas a confiarem num algoritmo para previsão de crimes que visava desproporcionadamente as comunidades mais pobres. São comportamentos que vão contra o que é fundamental numa sociedade livre e democrática e que decorrem da ignorância que nos leva a achar que tudo o que é tecnológico é bom e que a internet é tudo aquilo que é digital.

O que está aqui em causa é que, com a crescente importância da tecnologia na vida pública, precisamos desesperadamente de atores políticos que entendam o que está em causa e que saibam tomar opções que defendam as populações que os elegem. Não é necessariamente uma questão geracional, embora também o seja; mas é certamente uma questão de preparação para o que queremos que seja um governo moderno que prepare a sociedade pensando na tecnologia para lá das festas na Websummit.

Ler mais: O livro de Evgueni Morozov sobre o tecnosolucionismo chama-se To Save Everything, Click Here e é de leitura recomendada para entender este tema. Publicado em 2013, já mereceria uma nova edição graças à forma como as sua previsões se tornaram realidade e os seus alertas foram ignorados.

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