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Choque e pavor serão o futuro da política? Por Francisco Louçã

Choque e pavor serão o futuro da política? Por Francisco Louçã

Paul Valéry escreveu em 1919 que “o abismo da história tem profundidade suficiente para lá cabermos todos”. Esse é o destino de uma política baseada na vertigem do ódio. Nem a necropolítica nem a raça podem ser o nosso futuro comum

O general Millán-Astray, um dos orgulhosos chefes do levantamento das tropas conduzidas por Franco, em julho de 1936, esteve três meses depois em Salamanca, uma cidade que se juntara imediatamente aos revoltosos. A universidade comemorava a Festa da Raça e, numa sala cheia de uniformes, o general, conhecido pela sua arrogância, conduzia as celebrações. Diz-se que o reitor, Miguel de Unamuno, um famoso dramaturgo, poeta e filósofo que tinha apoiado a insurreição fascista, se sentiu incomodado com a exibição e teria levantado a voz: “Este é o templo da inteligência e eu sou o seu sumo sacerdote. Vencer não é convencer. Para convencer há que persuadir e para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na luta.” Ao que Astray teria respondido: “Morra a intelectualidade traidora! Viva a morte!”.

A história é encantadora, mas não é exata. Foi contada por Luis Portillo, um jovem professor, republicano, que não assistiu à sessão dado que já se tinha exilado em Londres, mas que romanceou o episódio, talvez baseado em alguns testemunhos, sendo ignorada na época. Não ficou registado o que terá afirmado Unamuno (a rádio transmitia a sessão mas ele não estava perto do microfone, supondo-se que terá dito só algumas frases), embora se saiba que Astray perdia facilmente a cabeça. Em qualquer caso, a história foi retomada uns anos mais tarde por um historiador destacado, Hugh Thomas, e entrou desse modo na lenda. O comprovado é que há uma foto do fim da sessão, quando Unamuno sai da universidade: vem com um bispo ao lado, rodeado por uma massa de milicianos fardados, em saudação fascista. Havia tensão no ar. Mas Unamuno não ficou perturbado e nessa noite foi tomar o café ao casino, como fazia sempre. Ouviu aí os insultos de alguns franquistas e o filho teve de o ir buscar e proteger. O reitor, que morreu dois meses depois, nunca escreveu sobre o tema. Talvez seja de dar por certo, pelo menos, que Unamuno respondeu alguma coisa à frase “Viva a morte”, que era a divisa da unidade militar de Astray, e que este a pode ter repetido.

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