www.publico.ptFerreira Fernandes - 18 out 07:18

Alerta para as cigarras: pensem é no agora

Alerta para as cigarras: pensem é no agora

Os tempos de hoje estão a preparar que não se gastem ventiladores com velhos, e que a democracia é coisa descartável.

 A rua onde nasci chamava-se, não sei porquê, nem a troco de quem, Rua Vereador Prazeres. Era de terra batida, na Luanda que, então, ainda se podia dizer que entrava pelo sertão fora. A uma esquina tinha a padaria Lafonense, da terra dos donos, os irmãos Marques, terras de Lafões, Portugal, Beiras, Europa. Do outro lado da esquina era um barracão cercado de muro alto, o Cine-Colonial. A minha rua era, é, um livro aberto. A toponímia da cidade iria perder nomes gloriosos, Silva Porto, Dom João II, Dom Afonso Henriques, mas guarda ainda hoje o do humilde vereador Prazeres. Há aqui uma lição qualquer.

Mas vejo por outra razão. A minha rua foi muito bem explicadinha, embora não citada, na edição de quarta-feira do The New York Times, com vídeo e tudo. O título: “Olá, Outra Vez, Cigarras. Tanta Coisa Aconteceu Desde 2003” (insisto em pôr o subir e descer das letras maiúsculas e minúsculas que é um dos encantos menores do NYT). Como vos disse, o melhor jornal do mundo desceu à minha terra, pois falou de cigarras. Geralmente a cigarra vem à baila para fazer contraponto à formiga, e em desvantagem. Mas da fábula de Jean de La Fontaine e dos contos japoneses, as cigarras chegaram — agora, com o que o NYT escreveu — a tratado de política. Das 3000 espécies pelo mundo fora, o jornal pegou num tipo de cigarra, a cicada Brood X, comum nos Estados Unidos. Esta cigarra americana logo depois de ser gerada adormece no subsolo, sob rochas e raízes durante 17 anos.

Durante 17 anos. E, num certo dia de verão, concertadas em milhões, a cigarra reaparece, fazendo-se ouvir com a estridência que conhecemos. Semanas depois, acasala e morre. Os ovos eclodem e, de novo, as ninfas entram pela terra dentro... Longas e escondidas catacumbas, para tão curta e gritante vida.

PÚBLICO - Foto Cicada Brood X Katja Schulz/Flickr

O ensinamento do vídeo do jornal americano é que 2020 — este ano estupor (o que mais nos vai acontecer?!!) — não foi de geração espontânea. Façam as contas, 2020 menos 17 dá 2003: a invasão do Iraque. E, pior, invadido, acabou-se com a polícia e o exército no Iraque, no país crucial de toda a região. Estavam todas as cigarras hibernadas?

A mais estúpida decisão da política externa americana, que sempre soube ser sábia até nos piores momentos. Quando invadia, matava os generais, substituía-os por majores ou sargentos que se tornavam novos generais filhos da puta, “mas o nosso filho da puta”, como explicou o grande Franklin D. Roosevelt sobre o ditador nicaraguano Anastasio Somoza… Da tolice de há 17 anos o Médio Oriente nunca mais se recompôs e a América, lá está, está 2020.

A tese de o ano 2020 ter sido congeminado em 2003 não é para ser lida à data certa, outras espécies de cigarras e em outros lugares escondem-se menos tempo que a Brood X. Nem aliás, à letra: os direitolas também podem substituir a invasão do Iraque como a mãe de todos os males, lembrando o facto de que, em 2003, logo a 1 de janeiro, Lula ter tomado o poder… O que o NYT quer dizer é que somos o filho gerado em anos atrás, larvas que entram pela terra dentro e por lá ficam. As Brood X , por 17 anos; em outras espécies, menos (ou mais, em França foram precisos séculos e 16 luíses para darem cabo da monarquia). E um dia tudo eclode.

PÚBLICO - Foto Derrube da estátua de Saddam Hussein durante a Guerra no Iraque

Ao menos que aprendamos que nunca aprendemos. A fábula do NYT é mais exigente que a de Jean de La Fontaine. “Cantavas? Então, agora dança…”, lançou a trabalhadeira formiga à outra, por esta não pensar no verão do que irá precisar no inverno. É injusto comparar uma cigarra a um vulgar ministro das Finanças holandês. E é mesmo de flamengo não apreciar, além da beleza, quanto custava ao próprio, em trabalho e suor, cada canção de Jacques Brel. A fábula do NYT mostra mais: é que não somos inocentes. Não por cantarmos, mas por dormir quando temos de ver.

Pela minha rua, às quartas-feiras à tarde, passava a manada para o matadouro, conduzida por um homem longo, pois era cuanhama, do Sul, de tanga e com um pau de apoio que impunha respeito aos bois como o bastão de Moisés aos destinados. Os bois iam e eu, menino, achava-os só conformados.

Bem no fundo da minha rua era o cemitério do Alto das Cruzes. Garoto, oito, nove anos, eu ia lá muitas vezes sozinho. Não pensem coisas macabras, era simples e saudável. Sou branco e africano, precisava de saber das minhas raízes. Se querem definição de coisa mais linda, para mim é, nas lápides, fotos esmaltadas, de sépia escurecendo ou embranquecendo, um acordeão de cores em famílias matizadas. O futuro, sonhava eu.

Ainda o cemitério não tinha os muros em forma de meia lua e o grande portão de ferro forjado, ainda se ouviam as hienas e o meu bairro não existia, numa tarde de outubro de 1856, um grupo de marinheiros apareceu com um barril. O capitão do brigue americano Charlotte, registado em Nova Iorque, morrera no alto mar e a tripulação meteu-o numa pipa de aguardente para o levar de volta à América. A operação correu mal, fedia, daí o brigue ter fundeado na baía de Luanda.

Já as pás se prestavam a um buraco mais fundo que longo, quando apareceu o administrador do cemitério exigindo o bilhete de sepultura. Um corpo numa barrica de aguardente, os documentos estranhos, o torpor dos trópicos, a discussão levou dias… E porque não no cemitério ao lado, o dos protestantes? Aí, foram ingleses a recusar. O consulado era influente, sobretudo Edmund Gabriel, o patrão da comissão mista luso-britânica que perseguia o tráfico de escravos africanos para as Américas, já proibido, embora ainda cruzando o oceano, nas vésperas da Guerra Civil americana. Mas tal era o fedor que a barrica foi, enfim, sepultada no “meu” cemitério.

PÚBLICO - Foto Escravos no convés. Aguarela de Francis Meynell (c. 1846) National Maritime Museum, Greenwich, Londres

Edmund Gabriel, esse morreu aos 44 anos, depois de década e meia em Angola a combater o mais vil dos negócios. Com febres, apanhou o vapor, morreu no mar e o barco voltou para trás devolvendo-o a Luanda. Foi enterrado no cemitério protestante, em dezembro de 1862. Nesse ano, no mês anterior, a 17 de novembro, a edição do NYT trazia na página 2, e não sabia, uma homenagem a Edmund Gabriel: a mais recente relação dos navios, escunas, falsos baleeiros, barcas e brigues, com os seus capitães, apanhados no tráfico de escravos.

Não trazia o nome do brigue Charlotte. Mas, pelo menos em 1858 — dois anos depois do sepultamento do capitão metido numa barrica de aguardente —, o Charlotte apanhou da boca do rio Zaire 600 escravos e depositou nas praias de Sierra Morena, Cuba, 415. Os outros ficaram na viagem, de disenteria, falta de água, maus tratos. Indignidade a que me amarraram, a mim, a todos.

Cem anos depois, um qualquer dia de calor, o garoto que eu era estava (digo, não provo, é direito de cronista) no cemitério do Alto da Cruzes e ouvi o canto das cigarras. Não percebi se elas me falavam de crimes — às vezes, não é?, não os ouvimos. Mas hoje, ainda mais 60 anos depois, não quero larvar como as cigarras e só cantar tarde de mais.

Os tempos de hoje estão a preparar — não para 2037, mas para já — que não se gastem os ventiladores com os velhos e que a democracia é coisa descartável. O problema das cigarras é descuidarem o presente, não o contrário, como se diz.

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