expresso.ptComendador Marques de Correia - 17 out 10:10

Como é possível, em pleno século XXI, obrigar cidadãos negros a celebrar o colonialismo?

Como é possível, em pleno século XXI, obrigar cidadãos negros a celebrar o colonialismo?

Fiquei duas vezes indignado e, nestes casos, menos por menos nem dá mais. Há uma indignidade no nosso Hino que convém e urge corrigir

Estava eu no remanso do meu lar, onde descobri não haver qualquer minoria étnica ou cidadão desafiado pela deficiência, o que me fez sentir mal por excesso de privilégio, quando me dispus a ver a Seleção Nacional de futebol. Isto ocorreu duas vezes, nos últimos domingo e quarta-feira, razão pela qual me senti duplamente mal. Já explico porquê. Mas antes deixem-me dizer que eu reconheço completamente a justiça e razão de os cidadãos racializados se sentirem discriminados perante um país como Portugal, que tem um racismo estrutural disseminado. Racismo tanto mais grave quanto é escondido. De facto, de acordo com a douta tese da investigadora Silvia Rodríguez Maeso, do Centro de Estudos Sociais Boavent... perdão, da Universidade de Coimbra, as narrativas, mesmo as cultas, segundo as quais Portugal não é um país racista são (cito) “um arquivo da institucionalização da negação do racismo em Portugal, em cumplicidade com o trabalho académico. Este estado de negação revelará noções hegemónicas sobre raça e racismo, assim como a legitimação de interpretações sobre a situação das populações racializadas, principalmente em relação à situação socioeconómica”. Perceberam? OK! Porque encontrarão muito mais no artigo da douta Silvia (é mesmo sem acento) na revista “Direito e Praxis”, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O título da importante reflexão é: “O estado de negação e o presente-futuro do antirracismo: discursos oficiais sobre racismo, ‘multirracialidade’ e pobreza em Portugal (1985-2016)”

Como compreendo isto, ou seja, a manhosice que há na nossa democracia em manter o colonialismo, racismo e discriminação que vinha de tempos anteriores, e agora de forma ardilosa, porque também através da situação socioeconómica, ainda me senti pior ao verificar que na equipa portuguesa de futebol há várias pessoas da população racializada obrigadas a cantar esse monumento ao Império, ao colonialismo, ao racismo, ao tráfico negreiro que é o chamado Hino Nacional ou ‘A Portuguesa’ (que por uma infeliz discriminação de género não se chama ‘A Portuguesa e o Português’).

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