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Cultivar, Alimentar, Preservar, Juntos — refletir sobre a forma como nos relacionamos com os alimentos

Cultivar, Alimentar, Preservar, Juntos — refletir sobre a forma como nos relacionamos com os alimentos

No Dia Mundial da Alimentação urge tomar consciência de que é fundamental redefinirmos o modo como nos relacionamos com a nossa alimentação!

Nas últimas décadas, a esperança média de vida dos portugueses tem vindo a aumentar, bem como a mortalidade prematura por causas não relacionadas com os estilos de vida, no qual se inclui a alimentação. Há muitos anos que a relação entre a alimentação e a saúde é conhecida e está bem definida, sendo o Padrão Alimentar Mediterrânico descrito como um modelo de alimentação saudável e sustentável a adotar, pelas implicações positivas em termos de saúde, estando claramente associado à redução do risco de doenças crónicas (doenças cardiovasculares, diabetes, alguns tipos de cancro, obesidade), à gestão do peso, e aumento da longevidade, mas também pela consciência ambiental, de proximidade à terra e à tradição que o mesmo propõe. Por outro lado, o consumo de alimentos processados, produtos açucarados, ricos em sal, gordura, gordura saturada e energia, característicos das sociedades de consumo atuais, em todas as faixas etárias da população portuguesa, associa-se ao desenvolvimento de doenças crónicas. A prevalência destas doenças continua a aumentar, apesar de todo o conhecimento que temos vindo a construir, com uma incidência crescente nas populações mais jovens.

A Organização das Nações Unidas aprovou, em 2015, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável na sua agenda para 2030, por 193 membros, resultado do trabalho conjunto de governos e cidadãos de todo o mundo, para criar um novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o ambiente e combater as alterações climáticas. Estes incluem garantir a produção e consumo sustentáveis e o acesso a saúde de qualidade e a promoção do bem-estar para indivíduos de todas as idades, o que implica uma alteração dos modelos de produção e de consumo de alimentos, procurando garantir a nossa saúde futura através da alimentação, mas também o futuro do planeta em que habitamos e do qual dependemos para a nossa existência.

Simultaneamente, temos uma cada vez maior, variedade de produtos alimentares disponíveis, que procuram responder às atuais preocupações em saúde e outras de sustentabilidade dos consumidores. No entanto, o foco continua a ser, frequentemente, dado aos nutrientes e à energia consumida, ao invés de nos preocuparmos com o tipo de alimentos que consumimos, numa perspetiva mais qualitativa, na qual se inclui a origem e a cultura de produção. Assim, a abordagem alimentar deve ser baseada no tipo de alimentos e condicionada pela quantidade de nutrientes, até porque, a seleção adequada dos alimentos permite, por um lado a ingestão de maior quantidade de comida (ou uma maior margem em relação às quantidades consumidas) e, por outro, garante o aporte em nutrientes (salvo em situações e condições de saúde específicas).

Tal exercício permite olhar para o alimento de forma integral, possibilitando uma maior ligação à proveniência do alimento, potenciando o cultivo pelo próprio ou o recurso a produções de proximidade, reduzindo o impacto dos transportes no meio ambiente e contribuindo para a solidez económico-financeira dos mercados nacionais/locais.

A ligação mais próxima ao alimento potencia a aquisição de competências culinárias e a promoção das mesmas parece igualmente aumentar o vínculo afetivo ao alimento, olhando-o como um todo e não apenas como fornecedor de um conjunto de nutrientes. As competências culinárias são determinantes na nossa capacidade de selecionar, preparar, cozinhar, consumir e apreciar alimentos que se aproximam de um padrão alimentar adequado. Mas, sem a preparação de refeições em família e a passagem de tradições, cultura e saber entre gerações, este conhecimento tende a perder-se, como já se verifica entre as gerações mais jovens.

Afinal apenas juntos/em comunidade, poderemos preservar o que de melhor potencia a nossa relação com os alimentos, promovendo o seu cultivo…

A atual situação pandémica e os períodos de confinamento fizeram com que os portugueses passassem mais tempo em casa, passaram a cozinhar mais e até a experimentar novas receitas. Que esta realidade adversa, a par do Dia Mundial da Alimentação, seja uma oportunidade para refletir e mudar a nossa relação com os alimentos, que nos permita um novo olhar sobre as escolhas alimentares que fazemos, estreitando as relações familiares através da preparação e confeção de refeições em família, desfrutando da socialização e do prazer à mesa. Estes, em conjunto a prática da atividade física, constituem os pilares fundamentais do Padrão Alimentar Mediterrânico, e que são tão importantes para a saúde, como aquilo que comemos.

Sugestões práticas:

PÚBLICO - Foto DR
  • Comprar, preparar, consumir alimentos o mais próximo possível do seu estado natural (para poupar tempo nas preparações pode optar pelas versões enlatadas ou congeladas, cujo processamento é ligeiro; tenha, no entanto, atenção à quantidade de sal – verifique a rotulagem)
  • Priorize as quantidades de aquisição e consumo pela seguinte ordem: hortícolas, cereais e tubérculos, frutas, leguminosas, lacticínios, pescado, ovos, azeite, frutos oleaginosos, carne;
  • Preferia alimentos da época e produzidos localmente;
  • Construa a sua refeição dando relevo à componente de origem vegetal, passando os produtos de origem animal para “acompanhamento”;
  • Cozinhe refeições em família e para mais do que uma refeição para poupar tempo;
  • Limite o consumo de produtos ultraprocessados, açucarados, salgados, charcutaria e similares
  • Conte porções alimentares e não alimentos (veja a imagem ao lado e connsulte a Roda dos Alimentos

Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico

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