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Dia 102: O que fazer quando um filho se queixa da escola

Dia 102: O que fazer quando um filho se queixa da escola

No caso de uma embirração grave de um professor, passadas algumas tentativas de conciliação, os pais têm o direito e o dever de encontrar rapidamente outra pessoa que olhe para o seu filho, que acredite nele, e que queira caminhar com ele. É o mínim

Ana,

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Como educadora de infância peço-te que me expliques uma coisa: como é que uma professora esconde a embirração que uma criança lhe provoca? Sim, porque há crianças que devem necessariamente complicar com os nervos de uma educadora. Até podem não provocar urticária na educadora da sala do lado, mas causam naquela, por uma qualquer razão.

Não me digas que disfarçam. Porque não é humanamente possível. Quando vou às escolas falar e vejo um grupo de crianças em redor de uma professora, sei ver a léguas qual é aquela que a professora tem dificuldade em suportar. É impossível que tanto a criança como a educadora também não o saibam.

É claro que quando o nosso filho se queixa de que a professora embirra com ele, nós negamos sempre. Lembro-me de uma vez estar no carro com a tua irmã e o melhor amigo dela, o Zé Maria, e ela se ter queixado de uma professora estava sempre a implicar com ela. Eu, que odiava que a minha mãe tomasse SEMPRE o lado das professoras, incompreensivelmente saltei logo a dizer que, com certeza, eram macaquinhos na cabeça dela. Que não implicava nada. E lembro-me do Zé Maria, muito esticado, sempre muito verdadeiro e corajoso, a dizer: “Não, não são macaquinhos, ela embirra mesmo! E embirra muito”. Tinham uns oito anos, na altura.

O que me leva à segunda pergunta, em não podendo e conseguindo esconder o que é que faz? E, como devem reagir os pais que, não querendo ser daqueles trogloditas que entram por ali dentro a insultar toda a gente que não adora o filhinho, também terão muita dificuldade em suportar que alguém embirre com ele? Ou, suportando, estão basicamente a dizer ao filho que não conte com eles para grandes coisas?

Hum, agora que penso nisso, acho que foi exactamente isso que fiz com a tua irmã, chutei para canto, convencendo-me de que, na vida, temos de aprender a viver até com quem gosta de nós, e esperei que o ano passasse depressa.

Querida Mãe,

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Lembro-me de colocar essa questão quando andava na faculdade e de receber uma resposta que me ajudou. “Para ti própria nunca finjas que x não te irrita ou que não tens uma paixão assolapada por y”. Ou seja: ser verdadeiro com nós próprios e aceitarmos que somos humanos e que temos mais empatia imediata com uns do que com outros, ou que às vezes, até por extensão de melhores ou piores relações com os pais das crianças, temos mais facilidade com uma ou outra criança. Isto é difícil.

Apetece sempre, para nós e para os outros, dizermos vezes sem conta que adoramos TODAS as crianças do mundo. Mas, se enfrentarmos essas emoções, sem medo de que sejam um reflexo de sermos más pessoas e, sobretudo, sem medo de que essas emoções nos levem a tratar mal ou injustamente os outros, há mais probabilidade de medirmos melhor os nossos actos, os nossos gestos e até os nossos preconceitos. Só se tivermos coragem de perguntar “Calma, porque é que ele me enerva tanto?” é que vamos ser capazes de descortinar que comportamentos activam os nossos botões e nos provocam daquela maneira. E, se o fizermos, será muito mais fácil separar esses comportamentos da pessoa que essa criança é, e o que nos irrita, de tudo o que ela tem de bom.

Em relação aos pais, uii!, isso é muito mais difícil… Já é sempre complicado equilibrarmos a nossa vontade de os defender de tudo e de todos, a nossa vontade de agradar aos outros e a sensação de não querermos ser os “pais chatos”, mas, sinceramente, parece-me que um bom professor, um professor a sério, daqueles que sabem que, antes de qualquer matéria, têm de saber mais sobre si mesmos, sobre as suas capacidades mas também limitações, nunca irá deixar uma embirração contaminar uma boa relação ou a aprendizagem. Porém, no caso de uma embirração grave de um professor, que os pais vêem que desistiu do seu filho, então acredito que, passadas algumas tentativas de conciliação, têm o direito e o dever de encontrar rapidamente outra pessoa que olhe para o seu filho, que acredite nele, e que queira caminhar com ele. É pedir muito a um professor. Mas é o mínimo que se exige para uma criança.

 Beijinhos

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