www.publico.ptpublico@publico.pt - 17 set 09:16

O ódio como prática política

O ódio como prática política

Marchando pelas ruas de Lisboa, Ventura costura a sua presença e actuação política de forma bem semelhante ao discurso de Bolsonaro: é o ódio como prática política.

Vivemos dias estranhos, em que o óbvio precisa ser dito. Não falo simplesmente dos absurdos narrativos, mas de questões estruturais do mundo como: o machismo, a LGBTQI+fobia, a desigualdade de classes e o racismo. Tais questões têm sido contestadas ao redor do globo, apesar do número de ataques à vida dessas pessoas. No Brasil, todo esse movimento teve em Jair Messias Bolsonaro sua representatividade política.

Bolsonaro fez uma escalada complexa até o cargo mais alto do executivo brasileiro. Eleito pela primeira vez em 1986, ganha nas eleições de 1993 uma cadeira no legislativo como deputado federal. Já então costurava o apoio à prática da tortura, mas era visto com ironia pelos seus colegas políticos. Durante os 27 anos como deputado, conseguiu aprovar somente dois projectos de lei entre os 170 que saíram dos seus gabinetes. Como comparação, Jean Wyllys, que era o seu maior opositor na câmara, teve os mesmos dois projectos aprovados em 612 com dois anos de mandato.

Jair foi eleito com um discurso pró família tradicional – mesmo num país em que cerca de 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão , de perseguição ao comunismo, em favor dos militares e contra o que ele chamava de “politicamente correcto”, ou seja, uma forma pejorativa de tratar as questões de direitos humanos. É importante constar aqui que a base da sua campanha para presidência foi a segurança pública e ele nunca conseguiu aprovar nada sobre o tema. Os dois projectos de Bolsonaro aprovados são: um que estendia a isenção de impostos sobre produtos industrializados e o outro para o uso de um medicamento chamado popularmente “pílula do cancro”. Com isso percebe-se que actuação política de Bolsonaro era irrisória, mas ao construir o seu discurso ele vai na direcção dos preconceitos populares.

André Ventura, voz a frente do partido Chega, está a fazer a sua escalada política nos moldes do discurso anti-minorias. Chega a afirmar que Portugal não é um país racista – apesar dos dados científicos sobre o racismo estrutural em Portugal, visível no número de negros na cadeia, nas inferiores oportunidades de emprego e na pouca presença em universidades. Essa é uma das formas que ele cativa o seu eleitorado: pelo preconceito.

O erro da sociedade brasileira foi olhar para essa prática política com ironia, sem perceber os atentados que esse discurso faz à democracia. Por conta disso, vivem actualmente num momento autoritário. Não prestar atenção a Ventura pode vir a ser o mesmo erro.

Marchando pelas ruas de Lisboa, Ventura costura a sua presença e actuação política de forma bem semelhante ao discurso de Bolsonaro: é o ódio como prática política e, com isso, catapulta a sua imagem com os preconceitos construídos pelo mundo capitalista – que vive pela diferença de classe, ou seja, para ser “rico” você precisa ser branco, europeu, cristão e homem, além de ter dinheiro. Qualquer característica que fuja desse estereótipo faz cair um degrau na escala das classes.

O erro da sociedade brasileira foi olhar para essa prática política com ironia, sem perceber os atentados que esse discurso faz à democracia. Por conta disso, vivem actualmente num momento autoritário. Não prestar atenção a Ventura pode vir a ser o mesmo erro.

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Durante as intervenções do parlamentar português percebe-se o quanto a sua preocupação narcísica, que procura atrelar a sua imagem ao homem comum, reforçam os preconceitos sociais. Dessa forma, André Ventura põe-se no centro da vida humana, assemelhando-se a Bolsonaro. É no desrespeito das diferenças que vive a extrema-direita e Portugal está a permitir esse avanço. O risco para a democracia é que ela seja assaltada pelo ódio.

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