expresso.ptMarta Gonçalves - 16 set 21:43

#AlanKurdi 4. A importância da cor azul

#AlanKurdi 4. A importância da cor azul

O Expresso está a bordo do navio de salvamento e resgate Alan Kurdi, operado no Mediterrâneo pela Organização não-governamental alemã Sea-Eye: estas são as crónicas desta viagem. Capítulo IV

Até ao anoitecer da partida acho que nunca tinha pensado no quanto a cor pode importar. O Alan Kurdi deixou o porto de Burriana, no sul de Espanha, às 1800 - é assim que a bordo se dizem as horas. "Acreditem ou não, vamos partir", anunciara antes o capitão. E o entusiasmo deu-lhes a energia de que precisavam. Pancadas na mesa para celebrar - é assim que a bordo se batem palmas, explicam-me. O sol começou a descer no horizonte. O Alan Kurdi buzinou, é o grito da saída. A luz passou pela tal "hora perfeita" e foi diminuindo. Após o jantar - aqui janta-se excessivamente cedo para os padrões portugueses - subi ao convés principal, passei a porta de madeira, pisei o tapete, encostei-me ao parapeito e fiquei ali só a olhar.

O mar era de um azul-azulão como nunca vi em nenhum outro mar. Estive 43 minutos só a olhar. Não via terra há bom bocado, só vazio e isso não me assustava (não assusta).

“Não saltavas?”, perguntei a um amigo a quem enviei uma imagem do vazio do mar. Disse que sim. Eu também saltaria. Há algo de extremamente seguro naquela cor e naquele vazio. Estávamos (ainda estamos) a caminhar em direção àquilo que deve ser uma das maiores tragédias na Europa nos últimos anos mas antes o mar mostra-nos como pode parecer uma coisa que não é: seguro.

Por uma razão que não sei bem qual, escrevi no Google “color meanings”. Após uma demorada vistoria pelos links sugeridos descobri que a maioria das pessoas gosta de azul - alguns links diziam que mais de 60% das pessoas no mundo põem o azul entre as cores preferidas. Não importa a cultura, mas o azul é sinónimo de responsabilidade. É segurança. É serenidade. Se for claro, é fresco e amigável. Se for escuro, representa força. Lembra-me uma destas páginas que até entre os católicos retratam quase sempre a Virgem Maria com vestes azuis.

Num dos poucos momento em que o alto mar me permitiu ter rede, trocava ainda mensagens com uns amigos e dizia-lhes como isto é bonito. "O quê, o mar?", questionou um deles meio que em tom trocista. Não é só o mar. E não lhes soube explicar isso. Não, não é só o mar. Aqui, no mar, é tudo tão perfeito que parece ter sido pincelado a aguarela. Aqui, no mar, somos enganados pelo que os nossos olhos veem. E lá, na Líbia, o mar também os engana.

Este mar não é seguro ou amigável ou sereno. Este mar mata. E mata muito. Só este ano já matou 560 pessoas. Desde 2014 foram mais de 20 mil.

1
1