www.publico.ptpublico.pt - 16 set 07:04

Moradores da “ilha do Canastro” já só contam os dias para mudarem de casa

Moradores da “ilha do Canastro” já só contam os dias para mudarem de casa

As nove famílias que habitam o edifício vão ser realojadas no Bairro de Santiago. Após sucessivas promessas, querem acreditar que desta é de vez.

Os sacos com a roupa e todos os outros bens pessoais estão empilhados e encostados às paredes, prontos para saírem dali o quanto antes. “Estou desejosa de ir embora”, testemunha “Manuela”, nome fictício. Pede para não ser identificada, mas não hesita em abrir as portas daquela que está prestes a deixar de ser a sua casa. Chegou à “ilha do Canastro” com apenas seis anos de idade e nunca mais dali saiu. Vai fazê-lo aos 70 anos, certa de que o prédio degradado onde tem morado não vai deixar saudades. “Disseram que mudávamos no final do mês, vamos ver”, repara, fazendo eco da promessa que lhe foi feita pelos serviços da câmara municipal de Aveiro.

“Manuela” e as restantes oito famílias da “ilha do Canastro” vão ser realojadas no Bairro de Santiago, em apartamentos renovados. “Ainda não vi a minha nova casa, mas só pode ser melhor que esta”, declara, ao mesmo tempo que nos dá a conhecer a exiguidade das divisões e mau estado das paredes e do tecto. Tem “uma espécie de casa de banho”, repara, com sanita, bidé e uma bacia. “Costumava aproveitar os dias em que tinha piscina para tomar banho, mas, como agora não há piscina, tenho de ir à casa do meu irmão”, conta.

Está cansada das condições em que vive. Por dentro e por fora. “Custa-me tanto ver estas pessoas dos prédios à volta, nas janelas, a olharem para nós, neste edifício velho”, nota. O prédio em questão foi construído por volta de 1950 e foi sendo conhecido, no conjunto habitacional da “ilha do Canastro”, como “o bairro dos pobres”. À volta, foram nascendo prédios novos e uma urbanização (Barrocas) que não tardou a assumir-se como uma das mais importantes da cidade.

Em breve, o velho imóvel virá abaixo. Depois de ter celebrado um contrato de comodato com a Paróquia da Vera Cruz, proprietária do imóvel, a câmara de Aveiro irá proceder à demolição do imóvel. O espaço irá servir para criar uma nova bolsa de estacionamento público, “como contributo para a diminuição da pressão rodoviária, complementada e valorizada com a componente arbórea, permitindo ainda a regulação da circulação viária em sentidos únicos”.

Uma vida passada  no bairro

Lurdes Vieira também passou quase toda a sua vida naquele prédio. Tem 71 anos e vive ali há 66. “Cresci aqui, casei aqui, a minha filha nasceu aqui...”, ilustra, a propósito do prédio que lhe traz “boas e más recordações”. “As boas são do tempo dos meus pais, do tempo em que éramos novos e em que havia grande cumplicidade no bairro”, conta. Nos últimos anos, a vivência no prédio passou a ser marcada pela degradação das infra-estruturas. “Cai areia do tecto em cima de minha filha, quando está a dormir, os esgotos não estão bem, e o espaço é pequeno”, aponta.

Também ela tem já tudo embalado, preparado para a mudança. “Estou mortinha para sair”, aponta, fazendo votos que “desta seja de vez”. “Há anos que nos andam a falar em sair. Os sucessivos presidentes de câmara iam falando nisto, e ainda no ano passado fizeram-nos preparar os sacos e acabou por não dar em nada”, enquadra. O facto de a autarquia e a paróquia já terem celebrado um contrato ajuda-a a acreditar que “agora é para sair”. Vai com a filha Cátia, de 33 anos, e os três gatos da família, “para um T2”. Foi essa a garantia que lhe deixaram da parte dos serviços de Acção Social da câmara de Aveiro.

O realojamento será feito em regime de renda apoiada, definida em função dos rendimentos anuais das famílias. E segundo garantiu Ribau Esteves, presidente da autarquia, ao PÚBLICO, o processo irá estar garantidamente concluído até ao final do mês. Esta terça-feira, já foram assinados os contratos de arrendamento social, seguindo-se, agora, o procedimento contratual relativo ao fornecimento de energia e água. “E em breve estaremos a fixar a data para o dia da mudança, com duas operações a cargo da câmara, ainda que com recurso a privados: haverá uma empresa a fazer as mudanças dos moradores e respectivos bens; terminada essa operação, nesse mesmo dia avança a demolição”, explicou o autarca.

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