sol.sapo.ptManuel Boto - 15 set 19:01

Presidenciais já mexem...

Presidenciais já mexem...

Como irá votar o PS é uma questão curiosa. Um Marcelo num segundo mandato é necessariamente diferente do Presidente popular e populista do primeiro mandato.

De facto, o tempo passa a correr. Já quase passaram 5 anos desde a eleição de Marcelo e a covid, que tem sido o tema da atualidade, começa a ser preterido pelas eleições presidenciais de 2021 e o aparecimento de candidatos.

Como expectável, haverá diversos candidatos, na linha habitual das cores políticas que aproveitam as campanhas e o tempo de antena para ‘esclarecer’. Marcelo, pelo contrário, deverá ser frugal nos seus custos como o foi há 5 anos. Falemos então de quem apareceu esta semana.

Começo por Marisa Matias, esperançosa de poder repetir os seus 10% de há 5 anos, que garante que vem libertar o país do ‘medo’, seja lá o que for que tenha pretendido dizer. Não satisfeita com esta tirada, a Coordenadora do Bloco, assume-se contra Marcelo porque este:

(i) quer um regime político assente em mais do mesmo, enquanto Marisa quer um regime que responda à pandemia social e que acabe com os privilégios;

(ii) aceitou um regime financeiro que se foi esvaindo em privatizações e negócios, enquanto Marisa quer uma banca pública de confiança;

(iii) quer um sistema de saúde concedido em parte a hospitais privados, enquanto Marisa quer um SNS de qualidade para todos.

Sinceramente, lendo isto, acham mesmo que há algo de diferente entre ambos, abstraindo a inconciliável diferença entre quem defende a nacionalização da economia e o socialismo quiçá venezuelano e quem defende a coexistência do privado e do público numa economia de mercado?

Alguém acredita que Marcelo, um Presidente profundamente humanista, não está preocupado com a pandemia? Ou que não deseje uma banca de confiança? Ou não queira um SNS de qualidade e prestígio, como tem afirmado quase diariamente? São frases feitas, sem qualquer substrato a não ser o ideológico, mas Marisa, que iniciou há muitos anos este caminho, também nada mais poderia dizer como tentativa de afirmação.

Ana Gomes candidata-se em nome de um socialismo democrático que não se revê em Marcelo, um socialismo intolerante nos seus princípios de esquerda como se hoje a democracia em que vivemos não tivesse há muito deixado para trás as ideologias que só alguns teimam em relembrar. Mas tem, sobre Marisa, a enorme vantagem de acreditar nos princípios democráticos que regem a nossa sociedade e, concordemos ou não com Ana Gomes, nas presidenciais esse campo estava por preencher.

Como irá votar o PS é uma questão curiosa. Um Marcelo num segundo mandato é necessariamente diferente do Presidente popular e populista do primeiro mandato, mas que tão essencial tem sido a Costa. Este, sabendo que Marcelo só não ganha se não concorrer, não o quererá hostilizar e, seguramente, não o irá afrontar.

Mas Pedro Nuno Santos e os seus homens (no fundo, o aparelho socialista que controla e onde predomina o pensamento esquerdista) não pensam assim. Por juventude ou por afirmação política, ninguém duvide que irão apoiar Ana Gomes (e alguns até talvez votar Marisa Matias). Será a primeira grande fratura dentro do PS, assumida ou não, e as suas consequências serão imprevisíveis.

P.S. 1 – Falta o PCP nomear o seu candidato que aposto ser Arménio Carlos, mais um ortodoxo da linha de Jerónimo, de enorme exposição pública decorrente da sua carreira na CGTP e que pode fazer o lançamento para novo Secretário Geral.

P.S. – 2. João Leão apareceu em entrevista na RTP. Veio anunciar boas novas nas Finanças, assegurar que os portugueses podem ficar descansados porque mesmo em crise pandémica ninguém irá ficar descontente (tirando os que perderam rendimento, digo eu).

Os impostos não sobem, a função pública pode ficar tranquila porque, apesar do défice público ser significativo em resultado da queda do PIB (16,3% no 2º trimestre 2020 e previsões para o final do ano de cerca de 7%, com a dívida pública em 135% do PIB) os seus ordenados e promoções automáticas estão garantidos.

Mesmo os trabalhadores do setor privado terão fortes motivos para sorrir porque o aumento do salário mínimo será ‘com significado’. A esta hora, sobretudo em todo um tecido empresarial português que assenta os salários nesta base, como muita da indústria ou da restauração e turismo, garantidamente que deve reinar o pânico e o espetro de desemprego e/ou falências.

Sejamos objetivos. Todos desejamos salários dignos para todos os trabalhadores e, com facilidade reconheço, muitas vezes tal não sucede. Mas, também num momento de enormes dificuldades da nossa economia, com redução generalizada do emprego, deveria haver uma maior sensibilidade para este tema por parte do Governo.

Sobre as empresas e apoios a prestar já foi menos entusiástico, refugiando-se, sem quantificar, nas promessas do incremento do investimento público. No entanto, não será bem assim dado que certamente por falta de dinheiro, apenas foram assinados contratos de 840 milhões de euros em obras públicas no 1º semestre 2020 em vez dos 2.670 milhões previstos.

Em suma, ainda sobre os privados, a troco da estabilidade governamental, tendo o PS de prometer algo à sua esquerda para garantir a famosa Geringonça 2, é justo que sejam feitas promessas que obriguem terceiros a pagar, essencialmente por razões políticas?

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