www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 15 set 16:31

A ironia do dilema social é não conhecer o dilema

A ironia do dilema social é não conhecer o dilema

Usar as redes sociais para falar mal delas é um tiro no pé porque, do outro lado, sabem o que fazer para a mensagem não circular. - Opinião , Sábado.

Já poucos falam disso mas há pouco tempo, ficámos em casa, limitaram-nos a acção, o tempo e o espaço, sem data para regressar. Houve quem fizesse pão, outros viveram a vida em directo, em lives no instagram. Em comum, as redes que nos (des)unem enquanto aparentemente nos aproximam e humanizam, nessa tímida relação que o online sugere, afastando-nos cada vez mais.

A Netflix estreou, há dias, um importante documentário que mostra muito do que ainda está por saber sobre os media sociais, no qual, aqueles que antes foram levados em braços, quais messias da era 2.0, são agora transformados em interesseiros subvertidos ao poder. Qual poder?

Haverá interesse em derrubar quem transformou o mundo, aproximando familiares e amigos, ligando conhecidos, partilhando notícias, criando grupos e novas vias de (des)informação? Certamente, mas não o sei identificar. Sei, contudo, que o documentário está disponível numa plataforma que é, também, uma empresa de transmissão de conteúdos de vídeo, que processa os nossos dados e recorre a algoritmos para, supostamente, nos servir cada vez melhor. O modelo replica-se autonomamente ao infinito, enquanto partilhamos o que estamos a ver nos media sociais e comentamos o comentário sobre o que outros estão a ver, no mesmo local. Confuso?

Sim. Estamos a viver um dilema épico, socialmente irónico, cujo fim e o início se interceptam, impossibilitando perceber onde começa e acaba este filme futurista que vivemos diariamente. Creio, no entanto, tratar-se de um documentário obrigatório,  especialmente para quem não está atento à razão pela qual quase tudo o que fazemos online nos leva até aos media sociais, com o Facebook a liderar, ou para quem já nasceu neste contexto sem o questionar. Uma pergunta simples: quantas vezes usam o Facebook para aceder a outra aplicação? Dessas, quantas vezes voltam a usar essa aplicação, a qual autorizaram a entrar no vosso perfil e extrair os vossos dados? Se não a usam e a apagaram, entraram no Facebook para revogar o acesso a essa aplicação?

Eu sei, também me esqueço, deixo os meus dados em circulação, com a diferença que há muito que deixei de actualizar o Facebook e ainda há mais que deixei de entrar em sites, serviços online ou aplicações, usando outras aplicações  (como o Facebook) e faço  o registo, sempre que possível, usando um endereço de email - que não o Gmail - e que também não é o meu endereço principal. Manias…

O Dilema Social faz um retrato dos vários lados da questão, mostrando a génese inocente dos media sociais, corrompida pela necessidade de se auto-financiar. Apesar de não haver apenas um culpado, no final, a conclusão aponta para o modelo de negócio que transforma o utilizador - nós - no produto, e a informação que partilhamos na moeda de troca, num um sistema cheio de fugas e alvos a abater. O melhor de tudo? São ex-funcionários que revelam o lado mau desta história, no momento  em  que perceberam que, se não fizessem parte da solução, continuariam a ser O problema. E que problema, porque da ideia inocente de criação do botão de like ao ex-presidente do Pinterest revelar que se encontrou refém da sua própria aplicação, há um conjunto de factos que convém conhecer.

Associamos muitas vezes a inteligência artificial aos robots, mas a AI está presente em quase tudo, manipulando a nossa inteligência, dizendo-nos o que fazer ou gostar.

O tempo que passamos nos media sociais é inútil porque nos coloca numa bolha da qual só com muito esforço conseguimos sair. E não sei se o algoritmo não detecta também essa tentativa de fuga… Fiz o primeiro teste no Spotify e, durante um ano ouvi mais do mesmo: géneros, estilos musicais e artistas iguais. Depois, tentei o oposto, escolhendo músicas, artistas e criando playlists muito (mesmo muito) ecléticas, completamente variadas (talvez até "avariadas") e o resultado foi o mesmo: sugestões em tudo semelhantes. Uma bolha sonora.

Como também explicam neste documentário, se não pagamos o serviço, somos o produto. Estas plataformas usam o nosso rasto digital para definir que publicidade vamos ver e, pior  do que isso, antever o que possamos querer comprar, gostar ou fazer. Se mais um par de chinelos é apenas isso, pensem agora na manipulação política ou outros temas igualmente relevantes… Uma nova dissidente, Sophie Zhang, enviou um memorando ao Buzzfeed, no qual expõe, com exemplos, que o Facebook pouco ou nada faz em relação à manipulação política eleitoral em vários países, revelando que, nos três anos que passou na empresa, encontrou vários casos de abusos governamentais e manipulação de actos eleitorais. Toby Ord, filósofo australiano, é peremptório no alerta para o fim da humanidade, por causas naturais ou descontrolo da inteligência artificial. Recorre a modelos matemáticos para determinar o colapso da civilização e conclui que o problema não é a tecnologia, mas a falta de sabedoria.

Por isso, se estão a ler no tablet ou no smartphone, mesmo até no computador, lembrem-se que a ferramenta que têm em mãos não serve apenas para telefonar, trabalhar ou passar o tempo. Serve para que outros usem a informação que disponibilizamos e categorizem o que fazemos com propósitos que desconhecemos e, este sim, é o verdadeiro dilema.

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