sol.sapo.ptLuís Pedroso Lima - 15 set 22:15

Preparemo-nos para o que vem aí

Preparemo-nos para o que vem aí

A política irá determinar – já o está a fazer - que não será possível voltar a uma situação de confinamento como aquela que se viveu no início da pandemia. Essa mesma política vai procurar portanto justificar todo o acréscimo de contágios e de mortalidade que vai ocorrer como um resultado esperado e controlado desse mesmo risco politicamente assumido.

Luís Pedroso Lima. Ex-administrador hospitalar

Facto 1 – O número de atendimentos urgentes diminuiu numa percentagem superior ao valor vulgarmente indicado como de utilização inapropriada dos serviços de urgência.

Facto 2 – O número de consultas presenciais nos cuidados de saúde primários diminuiu significativamente.

Facto 3 – A política irá pedir a todos um esforço de contenção e à comunicação social em particular uma prudência noticiosa anti-alarmista.

Os portugueses vão continuar a adiar as idas aos centros de saúde e aos hospitais face ao esperado e inevitável aumento significativo de contágios e à ocorrência nos meses próximos dos problemas sazonais tradicionais no acesso a cuidados de saúde provocados pela gripe. Em consequência a mortalidade vai aumentar mas a política vai dizer que está tudo controlado e que esta situação era esperada.

É de esperar que o número de mortes por situações não covid aumente ainda mais por falta de seguimento adequado de doentes crónicos e de outras complicações associadas a morbilidades de maior risco. É ainda de esperar que a gripe aumente as dificuldades operacionais nos hospitais tal como sempre têm acontecido em anos transatos.

É de esperar que sejam os mais idosos e os mais carenciados a sofrer mais com o cenário que tenho vindo a descrever.

Se ocorrerem situações de particular impacto público – encerramento de escolas, aumento significativo de mortes em lares, a política acusará a DGS e o Ministério da Saúde de incompetência e incapacidade para lidar a situação, provocará os necessários ajustamentos e assim, ganhar-se-á tempo até chegarem melhores dias.

A minha esperança é que este cenário todavia não venha a ocorrer. E é possível minorar as hipóteses de ele ocorrer se se optar já por algumas ações imediatas.

Não é aceitável que todos os dias centenas de ajuntamentos se façam em plena rua, em locais públicos e privados, aumentando o risco de contágio, alguns deles com as forças de segurança a passearem-se pelo local sem que essas mesmas forças de segurança hajam com a mesma determinação com que em abril o fizeram nas estradas de Portugal. Se necessário for que identifiquem e penalizem seriamente os infratores. Toda a gente sabe quem vende bebidas alcoólicas aos jovens que estão nestes ajuntamentos e que é a razão destes ajuntamentos.

Que se use as tecnologias para aumentar a prevenção e para minorar os efeitos do medo e receio dos portugueses em irem ao hospital e ao centro de saúde.

É preferível uma teleconsulta a um diabético que a completa ausência de acompanhamento. 

Agora que já se banalizou o conceito, convoquem-se os profissionais de saúde públicos, privados e sociais para aumentar a prevenção da doença.

É preferível um contacto proativo e preventivo com um lar de idosos por teleconsulta que alocar centenas de profissionais para atuarem quando a infeção já está instalada e o contágio já esta a aumentar.

Há várias dezenas de anos que a saúde e a segurança social não conseguem um entendimento sobre como atuar para a saúde dos idosos. Os idosos em lar, não são nem privados, nem públicos, nem sociais. São idosos, cidadãos portugueses e neste caso, população de risco. Não podem ser alvo de disputa de tutelas. Era assim e constato que infelizmente nada mudou.

Estabeleça-se um pacto nacional. Aceitemos correr o risco de um possível aumento de mortalidade e de contágios, por não termos capacidade económica de aguentar um novo confinamento total. desde que. a política aceite que lidará exemplementarmente com todos os casos que sejam gerados pela incúria, pelo egoísmo e pela estupidez e que não serão razões ideológicas ou de tutelas que impedirão a maior mobilização de recursos possível.

E quando digo a política digo expressamente os políticos. A situação que se vive não pode resolver-se responsabilizando uma pessoa ou uma entidade por mais importantes que sejam. Já o disse nestas mesmas páginas e volto a dizer, não tenho nada a ver com este Governo mas reconheço nesta ministra da Saúde um empenho, uma coragem e uma determinação inabalável. É a sua prova de vida certamente. Se não a ajudarmos fazendo cada um de nós o seu melhor então somos os primeiros a romper o pacto. Por mim, ela vai poder contar comigo. 

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