www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 15 set 22:38

Atenção!

Atenção!

Num estado em que todos nos ligamos, em que todos somos colhidos pelos estados que nos são legislados, evidenciar falta de cuidado, falta de respeito, falta de amor para com o outro pode muito bem atirar-nos, irremediavelmente, para o lado sombrio da esfera da reciprocidade elementar. - Opinião , Sábado.

Atenção. Muita atenção. Eventualmente o nosso estado foi alterado. Nos dias que nos correm, aqueles que nos ocorrem e que nos escorrem pelos dedos, as mudanças de estado são contingências da nossa vida. Das nossas vidas. São emergências da nossa vida exterior que reclamam urgências interiores. Nada como chamar a nossa atenção para convivermos com esses estados, com o nosso estado. Na definição dos diferentes estados, o que legitimamos – o exterior que nos contingenta – e o soberano – o do nosso ser -, a forma como definimos qualquer problema que com eles conviva é, ou não, o início da solução para esse problema. Vou sendo da opinião de que talvez possamos começar por definir o problema por dentro, onde somos soberanos, reis e rainhas de uma nação que começa por ser só nossa. E "quando nos tornamos verdadeiramente nós mesmos, passamos a ser uma porta basculante; e somos puramente independentes e, ao mesmo tempo, dependentes de tudo" (Shunryu Suzuki).

Somos chegados, então, ao estado de interdependência. "Um mundo interdependente significa que é contagioso e está desprotegido. Os problemas expandem-se e afetam-nos a todos. É um mundo no qual já não podemos ignorar-nos, onde a desatenção face às misérias de outros não nos protege da sua influência em nós. A indiferença não é possível, nem material nem eticamente. A ideia de interdependência significa precisamente que todos dependemos de todos, o fraco do forte, evidentemente, mas cada vez mais também o forte do fraco, cujo sofrimento acaba por atingir quem se julgava mais a salvo" (Daniel Innerarity). Vivemos, portanto, nas nossas famílias, nos nossos trabalhos, nas equipas, nas organizações, nas comunidades, num estado de reciprocidade elementar, não querendo para os outros aquilo que não queremos para nós. Estaremos preparados em todos os sistemas referidos para esta capacidade de olharmos os outros nos olhos e aceitarmos esta relação de interdependência? Felizmente vão sendo mais os exemplos positivos com que me deparo do que aqueles que vivem em estados de frustração interior constante, projetada, sucessivamente, nos que consideram mais fracos, esquecendo que todos comprámos um bilhete de ida e volta.

A capacidade de olhar nos olhos, de estarmos ao nível, de nos construirmos à medida de quem somos, "o significado simbólico do contacto ocular, de pormos de lado o que estávamos a fazer para nos ligarmos, reside no cuidado, do respeito e mesmo no amor que indica. Uma ausência de atenção em relação àquelas que estão em nosso redor envia uma mensagem de indiferença" (Daniel Goleman, Richard J. Davidson). Num estado em que todos nos ligamos, em que todos somos colhidos pelos estados que nos são legislados, evidenciar falta de cuidado, falta de respeito, falta de amor para com o outro pode muito bem atirar-nos, irremediavelmente, para o lado sombrio da esfera da reciprocidade elementar.

Sou, portanto, da opinião de que vivemos num estado da "trenpa". Num estado em que a plenitude volta a ganhar o seu espaço. Em que a plenitude individual é um ativo a respeitar pelos sistemas, pela coletividade, na construção de uma plenitude coletiva. Num estado em que ser pleno é recuperar a essência, o que pode e deve ser feito cultivando a "trenpa", palavra tibetana para "atenção". Atenção connosco e com os outros. Este é o nosso contingente, a nossa quota-parte.

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