24.sapo.ptManuel Cardoso - 15 set 15:56

Rigorosamente nada a ver

Rigorosamente nada a ver

Com os rigorosos Costa, Medina e Vieira

O documentário Dilema das Redes Sociais (Netflix) mostra-nos como as fake news, perante as quais todos somos vulneráveis, têm um potencial de serem disseminadas muito mais rapidamente do que as notícias verdadeiras. As notícias falsas são apelativas, algumas têm a capacidade nos deixar incrédulos, usualmente tocam num ponto emocional mas quanto mais verosímeis forem, apesar de falsas, mais tração terão. Por outro lado, às vezes há títulos tão absurdos que é difícil crer que haja ali um fundo de verdade. Foi o que me aconteceu com “António Costa e Fernando Medina na Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira”. Pareceu-me desde logo rebuscado, improvável, inconcebível, talvez torpe, quiçá soez - mesmo até para fake news. O problema é que eu estava a ler uma notícia verdadeira.

Se problemático era que o primeiro-ministro e o Presidente da Câmara de Lisboa apoiassem o actual presidente do Benfica, torna-se escandaloso que não admitam o erro. Pronto, tudo bem, aceitaram, foi estupidez, estavam tocados e a fumar charutos, claramente um erro, despeçam um assessor (pode ter achado que era para a comissão de honra de Luís Filipe Reis, reputado cançonetista) e voltem atrás. Mas não. António Costa tem repetido que o seu apoio à candidatura do actual presidente do clube com mais expressão em Portugal, presidente esse que tem dívidas para com o banco no qual injetamos dinheiro sem Costa saber, não tem “rigorosamente nada a ver com política”.

Pode não ter rigorosamente nada com política. Mas esta notícia que parece mentira não deixa de ter comentadores rigorosamente políticos a falar dela, como o rigoroso Rui Tavares. Talvez não tenha rigorosamente nada a ver com política, mas não prometo que os eleitores não votem rigorosamente nas próximas eleições a pensar rigorosamente o contrário. Sobretudo por uma rigorosa vontade de que Luís Filipe Vieira não tenha estrita, escrupulosa e rigorosamente nada a ver com as instituições rigorosamente democráticas.

Por último, mesmo no papel benfiquistas como eu, o que levará António Costa e Fernando Medina a atestar assim pela idoneidade de Vieira para cumprir um novo mandato à frente do clube? António Costa e Fernando Medina ambos participam diariamente da vida democrática e são alvo de escrutínio. Já Luís Filipe Vieira gere o clube através de "luzes", tem em mãos um canal de propaganda típicos de regime autoritário e já apertou o pescoço a um eleitor do Benfica na reunião magna do clube. Se apoiam um anti-democrático, como podemos confiar-lhes a democracia?

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