www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 15 set 07:00

Sexo, um vade retro

Sexo, um vade retro

O que une Passos Coelho ao empresário agrícola Mesquita Guimarães, que salvou as suas crianças de electrochoques semanais de cidadania, não são os módulos de Empreendedorismo ou de Sustentabilidade. É o SEXO - Opinião , Sábado.
O manifesto "Em defesa das liberdades da educação", assinado por 100 personalidades furibundas com a disciplina Cidadania e Desenvolvimento, do ensino secundário, seria cómico se não fosse trágico – mas a comédia não é mais do que a tragédia com tempo. É célebre o epílogo de Quanto Mais Quente Melhor (1959) de Billy Wilder, quando o milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown), após propor casamento a Josephine (Tony Curtiz), é confrontado por este com o facto de Josephine ser um homem, respondendo: "Bem, ninguém é perfeito." Wilder era um vienense que ganhava a vida como gigolo profissional antes de se tornar o mestre da sátira que arrasaria em duas décadas a hipocrisia dos bons costumes na América baby-boomer.
Para qualquer observador razoavelmente bem alimentado (não é preciso ser-se Wilder), o problema do caso da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento não é o facto de ela ser obrigatória. Ou de um despacho do secretário de Estado Adjunto da Educação obrigar dois alunos, cujos pais recusaram a frequência da disciplina, a um plano de recuperação para não chumbarem na dita.
O busílis do assunto nem sequer é o "marxismo cultural" que cada subscritor, de Cavaco Silva a António Barreto, denuncia surdamente no manifesto. O problema é o SEXO, caros leitores. Isabel Jonet ou a presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, Ana Cid Gonçalves, não estão apreensivas com a literacia financeira dos rebentos da nação. Estão preocupadas com o SEXO. O que une Passos Coelho ao empresário agrícola Mesquita Guimarães, que salvou heroicamente as suas crianças de electrochoques semanais de cidadania, não são os módulos de Empreendedorismo ou de Sustentabilidade. É o SEXO licencioso, desbragado, profano que se esconde atrás das cortinas ocre da igualdade de género.
Este combate pelo futuro da civilização, que une de forma pungente João Pacheco de Amorim, cabeça de lista do Chega por Coimbra às legislativas (e advogado de Mesquita Guimarães) a Souto Moura, visa abater conceitos escabrosos como a diversidade de escolha sexual e a liberdade transgénero - o SEXO, portanto.
O facto de a infame disciplina se escudar na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Constituição Portuguesa, na lei de bases aprovada pelo bloco central ou no meridiano bom senso dos professores – que não serão todos, presume-se, fãs raivosos de Caitlyn Jenner – é perfeitamente secundário. Urge, sim, deter o festim de SEXO antinatural e a orgia de interculturalidade homossexual que o currículo encerra no seu subtexto. Pensando bem, do que precisávamos era de um Billy Wilder em cada esquina.

Santos e...
Dois novos livros sobre cães confirmam que, desde o período crítico da evolução da Humanidade como espécie caçadora-recolectora, os "fiéis amigos" foram companheiros primeiro e guardas depois. On Dogs: an Anthology (Notting Hill Editions) recolhe ficções e textos científicos para um painel existencialista da osmose de parceiros caninos e humanos, do cocker spaniel da poetisa Elizabeth Browning ao Buck de Jack London em "Apelo da Selva", incluindo-se um ensaio do filósofo Roger Scruton sobre o dever do cuidador no âmbito de uma relação que não é obrigatória mas que deve ser "moral". Dogs: a Philosophical Guide to Our Best Friends (Polity) cita algo semelhante: foram os cães a moldar o humano, não o contrário.

...pecadores
O jogo que nos ensinou as bases de uma economia liberal tem origem anticapitalista. Concebido no início do século XX, o Monopólio chamava-se The Landlord’s Game e baseava-se nas teorias do norte-americano Henry George, para quem o que se encontra na Natureza pertence a todos, obrigando a extensa taxação sobre a propriedade privada. Elizabeth Magie, a criadora do jogo, uma estenógrafa que se recusou casar para resolver os seus problemas financeiros, causou escândalo quando publicou um anúncio como "jovem escrava americana", denunciando a dependência económica das mulheres à época. Um meliante, Charles Darrow, surripiou-lhe a ideia, deu-lhe o nome actual e tornou-se milionário – deveria ter ficado na casa da prisão; mas, dentro ou fora dos tabuleiros, a justiça poética rareia.
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