www.dinheirovivo.ptAna Rita Guerra - 15 set 08:32

Redes sociais são corrosivas. Haverá saída da matriz?

Redes sociais são corrosivas. Haverá saída da matriz?

O documentário "O dilema das redes sociais" é um abanão que nos mostra quão perniciosa a tecnologia se tornou em busca dos lucros a qualquer custo

Uma hora e trinta e quatro minutos é quanto dura a intervenção psicológica realizada por Jeff Orlowski para acordar o mundo da hipnose colectiva em que caiu na última década. “O dilema das redes sociais”, produzido pela Netflix, é capaz de ser um dos documentários mais importantes do século XXI. Tem um modelo híbrido, descrito como “documentário dramatizado”, mas ao que se assemelha mais é a um filme de terror que destapa a nossa realidade.

A reacção de muitas pessoas depois de ver este documentário é quererem apagar as apps de redes sociais e fechar o smartphone numa gaveta. Óptimo. É preciso ir até mais longe. Tirar os filhos das redes sociais. Tirar-lhes os smartphones, se possível. A situação é de urgência e não se vai resolver sozinha. É mesmo para ficarmos assustados.

Em “O dilema das redes sociais”, são explorados todos os desastres que esta era dominada pelo Facebook, Instagram, Twitter, Pinterest, YouTube, Google e outras plataformas trouxeram às sociedades um pouco por todo o mundo. O mais dilacerante é que os entrevistados não são uns quantos analistas obscuros nem uns conspiradores com chapéus de papel laminado na cabeça: são os engenheiros e executivos que criaram estes inabaláveis impérios do mal.

Temos ex-responsáveis do Facebook, da Google, do Twitter, do Pinterest, do Instagram, do YouTube e da Google. Temos o engenheiro que inventou a “rolagem infinita”, isto é, a técnica que permite navegar pelo “feed” de uma app durante horas a fio, desenrolando as imagens de um papiro digital que nunca termina. Temos o engenheiro que criou parte do algoritmo de recomendação do YouTube, responsável pela propagação em massa de teorias como a terra plana e o pizzagate. Temos o executivo que criou a estratégia de monetização do Facebook, toda centrada em torno da venda de publicidade orientada a perfis específicos.

O que estes executivos têm em comum é que ajudaram a criar as bestas sociais de Silicon Valley e agora levantam a voz para tentar domá-las. Mas é muito mais difícil voltar a pôr o génio dentro da lâmpada que descobrir inicialmente como tirá-lo.

Aqueles que seguiram o fascínio da trilogia “The Matrix” entre 1999 e 2003 percebem instintivamente o que é que este documentário está a tentar explicar. Isso é dito por um dos entrevistados mais importantes do filme, Tristan Harris, quase no final: “Como é que acordamos da matriz se não sabemos que estamos dentro dela?”

Isto vai muito além da ideia de que quando um produto é gratuito, nós somos o produto. É a revelação mais importante do documentário: que não se trata de estas empresas venderem os nossos dados, isso é do conhecimento geral e não parece importar a muita gente. O produto não é a nossa atenção; o produto que eles vendem é a capacidade de mudar a nossa mente.

Estas empresas estão no negócio de modificar a nossa percepção e moldar o nosso comportamento, com o intuito de nos levar a comprar os produtos anunciados – porque a publicidade paga o serviço. Estão, efectivamente, a utilizar a nossa psicologia contra nós, levando-nos a mudar a forma como vemos o mundo, como agimos no dia-a-dia e como nos relacionamos com os outros. As nossas crenças deixam de ser nossas quando são manipuladas por sistemas desenhados para criar uma necessidade e supri-la, ad eternum. As notificações, os gostos, a resposta, a dopamina, o FOMO, a rolagem infinita. São estratégias conscientes e sem regras, a “tecnologia da persuasão”, desenhada por pequenos grupos de pessoas com imenso poder para extrair o máximo de lucro possível dos milhões de utilizadores destas apps.

E como tudo isto se passa a um nível subliminar, os alertas da nossa consciência não disparam. Não percebemos que estamos a ser doutrinados, tal como o membro de uma seita não sabe que se juntou a uma operação de lavagem cerebral.

O resultado disto? Erosão dos factos e da verdade. Manipulação de eleições. Gerações inteiras viciadas nos ecrãs. Aumento exponencial da depressão e do suicídio entre adolescentes. Conspirações que geram violência nas ruas. Se nada for feito, dizem os entrevistados do documentário, trata-se de uma ameaça existencial. Guerra civil – algo que cientistas políticos com quem tenho falado no período pré-eleições nos Estados Unidos temem se Trump perder; alterações climáticas irreversíveis; populistas no poder e destruição do processo democrático; implosão das instituições que garantiram a estabilidade no último século. Uma ameaça existencial que deriva da “religião” do lucro a qualquer custo que impera em Silicon Valley. O capitalismo da vigilância. As plataformas sociais deixaram de ser ferramentas e passaram a ser agentes de modificação, o que é muito preocupante para as gerações mais novas, que nunca conheceram um modo de ser “offline”.

Apesar de sermos lembrados dos aspectos positivos que as plataformas também trouxeram, é particularmente relevante que os executivos que estiveram por detrás da criação destas tecnologias não deixem os filhos usá-las. Nem smartphones nem redes sociais. Recomendam uma dieta digital rigorosa, depois de eles próprios terem sofrido os efeitos daquilo que criaram.

Extrairmo-nos das redes nem sempre é possível e acabar com estas empresas não é plausível. Fazer o quê, então? A resposta é a mesma há alguns anos: cortar na loucura dos lucros a todo o custo com uma catana. Assumir que é mais importante manter o tecido social coeso que dar dinheiro a investidores e “visionários”. Regulamentar, e a sério, aquilo que pode e não pode ser feito por estas plataformas e a sua estrutura de monetização. Tratá-las da mesma forma que se trata a venda de produtos farmacêuticos falsos, publicidade a menores ou substâncias intoxicantes: com mão pesada e supervisão apertada. Porque as redes sociais funcionam como uma droga. E não há antídoto para o veneno invisível que nos injectam diariamente.

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