expresso.ptCarmo Afonso - 14 set 11:11

Pancada de cego

Pancada de cego

Opinião

Andar de bicicleta é daquelas coisas que se aprende a fazer muito cedo ou nunca se faz bem. Tem que ser numa idade que permita que a coordenação de todos os movimentos seja integrada no inconsciente de forma a que uma travagem súbita ou um desvio de direcção não careçam de análise racional, mas surjam como resposta inevitável do corpo e da cabeça. Um pouco como quando pomos a mão numa superfície quente: se a temperatura ultrapassar a que a pele tolera tiramos a mão instintivamente e numa fracção de segundo. Quem anda bem de bicicleta é também assim que faz.

Quem anda bem não costuma dedicar-se à análise da complexidade de articular o equilíbrio com o exercício da força, com o piso ou com a inclinação. Ou seja: quem anda bem de bicicleta não tem um discurso sobre andar bem de bicicleta, não teoriza. Anda e não pensa nisso. É quem está a aprender ou quem anda mal que passará tempo a reflectir e a tentar aperfeiçoar cada acção que mantém a bicicleta em equilíbrio, que a faz avançar e nas que podem evitar ou melhor reagir a perigos e obstáculos.

Andar de bicicleta é como viver. Não no sentido em que se aprende a viver bem em criança (vamos lá ver: nunca se aprende a viver) mas no sentido em que se vive muito melhor quando não se pensa muito sobre isso. É verdade. Quanto mais deixados à nossa qualidade animal e automática, mais simples, fácil e eventualmente satisfatória, é a vida. Os exercícios do pensamento e da reflexão podem ser um martírio e podem também ser uma armadilha: o ego ou o excesso de consciência da personalidade são muito difíceis de separar do pensamento. E nem chego à espiritualidade onde as armadilhas são ainda maiores, sobretudo quando serve de atalho para a compreensão do mundo.

Nunca ninguém compreendeu o mundo ou chegou a alguma conclusão válida sobre aquilo que se está aqui a fazer. Só que ter essa consciência não ajuda muito. É que ninguém é tão inteligente que perceba a vida mas também ninguém é tão estúpido que não se dedique a tentar.

A ocasião surge muitas vezes a propósito de se começar a fazer uma coisa nova. É o caso aqui. Falemos pois sobre jornais.

Karl Kraus - estar no on-line é magnífico porque permite recomendar que procurem saber um pouco mais sobre ele, já sabendo que, se estão a ler este artigo, é porque dispõem dos meios para o fazer - foi um crítico feroz do jornalismo da sua época e dos opinadores que escreviam em jornais e que manipulavam, mais do que a opinião dos seus leitores, o próprio acto de compreensão dos factos, impedindo-os, e de forma definitiva e irrecuperável, de fazer uma análise própria da realidade. Era esta a sua visão. Bom, paradoxalmente Kraus escreveu durante 37 anos – desde 1899 e até à sua morte, um sacerdócio - na revista “Die Fackel” (O Archote). As suas ideias eram puras e são incontornáveis. Basicamente Kraus perseguia a verdade e o direito de todos à verdade e considerava que o jornalismo fazia o oposto. Kraus viveu em Viena, foi admirado e lido por Brecht, Walter Benjamin, Wittgenstein – algumas das mentes mais brilhantes da história.

O radicalismo de Kraus continua a fazer sentido, talvez mais do que nunca. Condicionar o pensamento de uma sociedade é um acto da maior responsabilidade e fazê-lo sem essa noção será das coisas mais perigosas para a democracia, só superada pelo acto de o fazer com uma má intenção.

É absolutamente necessário que o jornalismo seja honesto e que persiga a verdade e é sobretudo necessário que exista jornalismo. Sem jornais, sem uma relato isento e uma reflexão sobre a actualidade e sobre os temas fundamentais, não existe democracia nenhuma. Este é um aspecto complicado: não dá para dizer “os jornais têm pouca qualidade, acabemos já com isto” como não dá para dizer “o ensino não tem qualidade, fechem as escolas.”

Caminha-se a passos largos para o enfraquecimento do jornalismo: uma mistura entre a continuidade de mau jornalismo (existe, tem que ser dito) e a sua perda de importância, mesmo do bom jornalismo e dos bons jornais, relativamente às redes sociais. Sucede que são os jornais que asseguram a produção de conteúdos informativos e estão, em teoria, obrigados a cumprir regras que têm a ver com ética.

Os utilizadores da internet perderam totalmente o sentido de justiça no que diz respeito ao direito que julgam ter, a título gratuito, a estes conteúdos. Não estão dispostos a pagar e sabem que acabarão por ter toda a informação nos seus ecrãs, da mesma maneira que conseguirão ouvir música e até ver filmes. Resultado: os jornais estão cada vez mais descapitalizados, quem trabalha na imprensa é mal pago e esta situação não contribui para a melhoria do jornalismo e tem perigos muito maiores para a democracia e que já saltam à vista.

A injustiça neste aspecto é total mas este não é ainda o maior dos males.

Quando acedemos gratuitamente a conteúdos produzidos por quem não tem o seu modelo económico assente nessa gratuitidade não estamos só a prejudicar esses produtores de conteúdos, estamos também a enriquecer quem já é muito rico e a contribuir para o capitalismo mais selvagem que já se conheceu. É que quem está a facturar com esses conteúdos são os novos multimilionários que proporcionam a sua difusão gratuita através dos seus negócios da internet: redes sociais, motores de busca e aplicações.

A verdade é que existe quem continue a investir em publicidade, mas não o faz onde essa receita faz falta como de pão para a boca (aqui nem é preciso usar a expressão como metáfora), fazem-no junto dos tais novos negócios, cujos donos estão a passar de estupidamente ricos a categorias com nomes novos tão difíceis de entender como difícil é contar o número de zeros que compõe as suas fortunas.

Trata-se uma pirâmide que tem muito poucos no seu topo, que estão cada vez mais ricos e que têm escapado mais do que deviam ao escrutínio da consciência colectiva.

Vejo diariamente a revolta de algumas centenas de pessoas, muitas vezes justíssima, perante uma qualquer falha do jornalismo, mas não vejo essas centenas encetarem a necessária reflexão que deve ser feita sobre as consequências de estarmos todos ali ligados uns aos outros, sem rei nem roque, a aceder a notícias falsas, à opinião uns dos outros, a ser alvos fáceis de manipulações como nunca se assistiu na história da humanidade e sobre o possível desfecho disto tudo. Aquela liberdade total é a primeira aparência de uma perda de liberdade também ela sem precedentes. Somos peixinhos, uns dourados outros não, num aquário de vidro transparente. Os peixinhos discutem mas ali estão em ambiente condicionado a ser vistos, controlados e apreciados.

Uma característica engraçada destes novos multimilionários das novas tecnologias e da internet é que se dedicam à filantropia – e na filantropia para o jornalismo. Têm fundações, apoiam projetos, lançam concursos, bolsas, etc. Mas, se a decadência do jornalismo e a ascensão meteórica das redes sociais vão acabar com a democracia, o que dizer desta filantropia?

É simples: Não, obrigada. Paguem impostos, e nos países onde obtêm receitas, e deixem-se de caridades. Esta filantropia é o golpe final.

A passagem directa de dinheiro dos ricos para os pobres é uma máscara que disfarça a verdade: o sistema capitalista actual – sobretudo o ligado a estas novas áreas – gera desigualdades sem precedentes. Melhor então que isso fique à vista e que se deixem de fundações que se dedicam a ajudar a humanidade. É para isso que votamos e fazemo-lo em políticos e não em bilionários. A caridade dos muito ricos é sobretudo uma afirmação do seu poder e uma forma de perpetuarem a inaceitável desigualdade que os separa dos restantes.

Nós pedalamos esta bicicleta mas ela ainda não é um prolongamento dos nossos membros. Nunca será. Somos de outro tempo. Conseguimos, e precisamos de o fazer, reflectir sobre o que acontecerá a uma sociedade dominada por este poder totalizante e despótico.

E as novas gerações? Os que começaram nisto desde que têm consciência de si mesmos?

A esse propósito lembro-me de uma expressão que se usa na serra para descrever um acidente em que, quem bateu ou caiu, não anteviu de todo o que se ia passar. Diz-se: “Foi pancada de cego”. É a pancada de quem não travou nem deu uma guinada para evitar o embate.

Quem anda muito bem nesta moderna bicicleta, porque começou cedo e nunca conheceu outra realidade, provavelmente não a questionará. Pedalam e pedalarão a toda a velocidade e usufruem da liberdade extrema de navegar na internet, deixam-se aprisionar na rede nessa busca de liberdade e autossuficiência, um pouco como quem procura no amor uma cura mas o que apanha é uma nova doença. Buscam informação que os jornais não têm tão actualizada como a que resulta de partilhas nas redes sociais (as manifestações na Bielorrússia ou os avanços do “BLM” são bons exemplos de falhas na informação nos jornais portugueses) e começam a partir do que vemos como sendo a linha do horizonte.

“É o ciclo da vida”.

Estas novas gerações correm o perigo da pancada de cego. Mas o pessimismo com que constato isto tem algum optimismo implícito: a democracia que conhecemos é liberal e é certo que os colapsos sempre aconteceram. Os mesmos que derrubam as estátuas que representam aquilo que não aceitam, e que dessa forma fazem história (não fosse o limite de caracteres e agora contava-vos a defesa que Kraus fazia de que se fosse preciso vender uma tela do Rembrandt para tirar o frio a um homem não se deveria hesitar, a defesa de que a vida de um homem é mais importante que uma obra de arte), também saberão levantar-se depois da grande pancada.

Deixo uma sugestão para alguns que leiam jornais e que leiam este artigo: não esperem que se façam estátuas dos Zuckerbergs.

Derrubem-nos antes.

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