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“Cannabis” e álcool: as companhias esquecidas dos combatentes da Guerra Colonial

“Cannabis” e álcool: as companhias esquecidas dos combatentes da Guerra Colonial

A tese de doutoramento que o investigador na área dos Comportamentos Adictivos Vasco Gil Calado defendeu no ISCTE, em Lisboa, no ano passado, foi transformada no livro Drogas em Combate – A Guerra Colonial, editado pela Lua Eléctrica. O antropólogo

Vasco Gil Calado nunca se interessara pela Guerra Colonial (1961-1974) até se embrenhar na tese de doutoramento em Antropologia. A trabalhar na área dos comportamentos adictivos desde 2001, queria perceber se, como acreditava, o uso de drogas não pode ser entendido meramente como um acto individual, independente do contexto de quem consome. A guerra e os portugueses que nela combateram apresentaram-se como o cenário perfeito para o que pretendia — um contexto muito específico, com um grupo de indivíduos concreto e que não fora praticamente estudado. Recorrendo a entrevistas presenciais e a um questionário, falou com mais de 200 ex-combatentes, cruzou o que lhe disseram com relatos dispersos por livros e blogues e chegou ao fim convencido de que a sua premissa era verdadeira. Em Moçambique e em Angola, durante a Guerra Colonial, os soldados que saíram de Portugal para África tiveram por companhia a, para eles, praticamente desconhecida cannabis e o mais do que habitual álcool. Alguns terão sido mesmo responsáveis por, ao regressar a casa, darem os primeiros passos, ainda que incipientes, na transformação da cannabis num bem comercial, trazendo-a escondida entre os seus pertences e vendendo-a. A maior parte dos que assumiram o consumo desta substância na guerra afirma tê-lo abandonado assim que o medo e a tensão inerentes ao conflito ficaram para trás. O mesmo aconteceu com o consumo exacerbado de álcool. A tese de doutoramento que defendeu no ISCTE, em Lisboa, no ano passado, foi transformada no livro Drogas em Combate – A Guerra Colonial (Lua Eléctrica, Junho de 2020), e o autor chegou ao fim com uma certeza, que pode ser lida logo nas primeiras páginas da obra: “Descobri que uma guerra nunca é apenas um contexto onde acontecem coisas, ela é a própria causa das coisas que aí acontecem.”

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