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101 canções que marcaram Portugal #33: 'Playback', por Carlos Paião

101 canções que marcaram Portugal #33: 'Playback', por Carlos Paião

Desde que a sua história se cruzou com a de Amália, Carlos Paião – grande compositor, melodista exímio – tornou-se também um artista respeitado não apenas como artesão para letras pitorescas. Foi no ano seguinte a este 'Playback', a 31ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Playback', Carlos Paião
(1981)

Naquela noite fria de 7 de março de 1981, a professora Ofélia e o capitão Carlos Teles, na sua casa em São Domingos de Rana, receberam um telefonema de Amália Rodrigues. Não se conheciam, mas a maior artista de Portugal foi a primeira a ligar aos pais de Carlos Paião para os saudar pela vitória no Festival dessa noite. Amália atravessava um período de inflexão na sua carreira. Sobrevivera a anos de desamparo público – porque tinha de haver culpados óbvios e Amália era símbolo óbvio de em quem extravasar.

Nessa noite, no Teatro Maria Matos, Carlos Paião festejava a vitória com a canção ‘Playback’, letra e música sua, e uma coreografia cuidada de Joel Branco. As ‘Doce’ eram as grandes favoritas mas foi um improvável e quase desconhecido Carlos Paião quem iria a Dublin defender a sua canção. O finalista de Medicina, até aí só dedicado a escrever canções para outros artistas, arrancaria para sete anos de esplendor na música popular portuguesa. Sete anos foi o que durou a sua carreira a solo. Entre o festival RTP e a Eurovisão, teria tempo de se casar com Zaida, a sua namorada desde os 14 anos, e faria da capital da Irlanda a sua lua-de-mel. Tinham já comprado casa em Tires, perto da igreja onde se casaram, e de onde sairia anos depois pela última vez para uma atuação no concelho de Leiria.

Amália reviu em Paião um alento de (re)descoberta da música popular como Alain Oulman o fizera na poesia em português, décadas antes. Num assomo de humildade, postou-se em frente a um gravador na sua casa e, em 1982, ouviu 30 canções de enfiada, das 22h às 2 da manhã. Quando as ouviu, pela mão de Mário Martins, o mentor discográfico de Carlos Paião, quis gravá-las na totalidade, mas seriam registadas apenas duas, 'O Senhor Extra-terrestre' e 'O Amigo Brasileiro'. Iniciaria nesse ano a sua fase mais maturada, e Carlos Paião cunharia a partir daí a sua autoridade como músico respeitado e já não só apenas como meneador da língua portuguesa para letras pitorescas.

Carlos Paião era um artesão da sua língua: utilizava a metáfora, o jogo de palavras e o conhecimento profundo da raiz mais popular para criar melodias orelhudas – mas também sérias, ternurentas ou reflexivas. No essencial, denotava um vincado respeito e comunhão pelo património cultural e popular português. Pela deferência que tinha à música portuguesa, recolheu-se certa vez em casa durante vários dias, sintonizado continuadamente na RDP, na RR e na Comercial – apenas para aferir a percentagem e o tipo de música que emitiam. Passou a ser ainda mais interventivo e insurgente no domínio da sua língua e da música cantada na sua língua.

Não tendo trazido elementos inovadores à música portuguesa, elevou todavia a fasquia desde então, não deixando sucessores distintos. Era fundamentalmente um compositor. Um grande compositor. Um melodista exímio. Um letrista singular. Lapidava palavras, em catadupa – e ninguém desde então se lhe igualou. Foi um homem do seu tempo e teria sido de outro tempo se tivesse vivido antes ou sobrevivido depois.

O artista que mais cantou Carlos Paião foi Herman José. Ao todo, 30 canções, algumas para o hiperbólico Serafim Saudade, caricatura de um certo tipo de artista com que Paião e Herman conviviam nos arraiais de província. É uma aparente incoerência que o compositor de canções alegres e burlescas fosse na intimidade um homem recatado e tímido. No seu último álbum, que já não viu editado, aparecia sorumbático. Nem uma foto a sorrir. Nem uma letra alegre. Intitulava-se ‘Intervalo’. Talvez estivesse a ensaiar um transvio no seu caminho. Meras suposições de alguém que se deverá recordar apenas como um prodígio do que é escrever canções em português.

Carlos Paião esteve ao serviço dos outros. Do público. Das canções. Da língua portuguesa. De Portugal. Escolheria a profissão de médico se a música não se tivesse intrometido na sua génese – que não são profissões assim tão distintas, porque servem os outros e se relacionam com os outros. Carlos Paião viveu de rompante na vida e na música. Portugal ainda mal se recompôs da sua ausência.

Em play-back, respirar pra quê?
Quem não sabe também não vê
Em play-back
A fazer play-back
E viva o play-back
Dá pra toda uma soirée.

Ouvir também: 'Tó Kratintas' (1983). Destinada a ser gravada por Raul Solnado, foi antes cantada por Carlos Paião em “O Foguete”, série de televisão que animou as noites de sábado na RTP.

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