www.dinheirovivo.ptPedro Rocha Vieira - 1 ago 11:13

Renovar o essencial

Renovar o essencial

Todos somos chamados a ser parte da solução e esta não deverá ser monolítica, pois há que saber imaginar cenários alternativos e lutar por eles

Na cena final de Stromboli, clássico do Rossellini e do neo-realismo italiano, Ingrid Bergman, personagem refugiada de Leste, que casa por conveniência com um soldado italiano de Stromboli por não ter conseguido escapar para a Argentina, tenta fugir da aldeia, por se sentir asfixiada e julgada por todos e negligenciada pelo marido, tendo como única solução subir um vulcão ativo. Ao acordar de manhã, depois duma noite em desespero, grita “É belo”, ao ver a paisagem da ilha do cimo do vulcão e depois termina o filme com a frase “meu Deus, ajuda-me! Dai-me a força, o entendimento… e a coragem. Deus, Deus, meu Deus misericordioso.”

Não consegui deixar de fazer o paralelismo com a situação de pandemia em que vivemos. Como a covid, tal vulcão ativo, tanto nos tem ostracizado e asfixiado enquanto humanos, profissionais e cidadãos. Como se tem tornado uma fixação, uma ditadura do medo que nos empurra para os perigos do pensamento convergente, homogéneo, e nos tem privado daquilo que nos define mais profundamente enquanto humanos, a confiança, a abertura à descoberta e ao outro.

A morte é um tema central na maioria das religiões e uma pulsão essencial estudada pela psicanálise. Em particular para o Budismo, como tão bem nos revela o Livro Tibetano da Vida e da Morte, considera que a nossa capacidade de aceitar a morte e de nos preparamos para ela, é na verdade a única forma de nos entregarmos à vida e chegarmos à iluminação.

Para além do medo e da morte, a pandemia reacendeu também os antigos fantasmas da política económica e social. Perante a dimensão dantesca desta crise, a única solução parece ser via ajudas financeiras do Estado, o que nos remete, de certa forma, para uma situação de ambiguidade moral, de sombra “paternalista” e de dúvida sobre o nosso valor intrínseco, sobre o valor do trabalho e da iniciativa empresarial.

Navegar nesta realidade pessimista, opressora e imprevisível não é fácil. Conseguir pensar com clareza perante o incessante e incansável debitar de soundbites e opiniões é um desafio crescente. Exigente manter o entusiasmo e a serenidade com tantas solicitações e desafios constantes.

É preciso parar, silenciar, serenar, renovar, percebermos que também nós somos seres circulares. Sem este espaço mental é impossível ter a presença de espírito para sermos verdadeiramente criativos, para recomeçar e para desenvolvermos uma sociedade e uma economia de (novo) propósito.

Já quase tudo tem sido dito, temos informação sobre a maioria dos cenários e as inúmeras dimensões e recomendações para uma potencial retoma. Certamente vamos precisar dos apoios da Europa e passar tempos complicados que convidam à moderação e à prudência. .

Durante este período de transição lembremos Ingrid Bergman e saibamos também ter a força, o entendimento e a coragem para renovar a esperança na humanidade.

Pedro Rocha Vieira, comissário geral de Portugal para a Expo 2020 Dubai

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