www.publico.ptalexandre.martins@publico.pt - 1 ago 23:37

Máscaras danadas

Máscaras danadas

Pode ser divertido pôr em causa o uso de máscara para nos protegermos de um vírus que causa doenças respiratórias. Mas em algum momento temos de sair das aulas de Filosofia do 10.º ano e seguir em frente com as nossas vidas.

Na primeira cena do filme Cães Danados, de Quentin Tarantino, o pequeno-almoço dos oito criminosos que se preparam para assaltar uma joalharia é subitamente estragado por duas discussões que viriam a ficar na história da Internet pelo seu visionarismo.

Antecipando a profundidade dos debates que ocupam hoje milhões de utilizadores do Facebook em todo o mundo, o grupo desentende-se sobre o objectivo da verdadeira história por trás da canção Like a Virgin, de Madonna.

Em particular, se é uma metáfora para a dor provocada durante o acto sexual por pénis anormalmente grandes (“Daí o título Como uma virgem”, diz um defensor desta teoria); ou se é a história de uma mulher vulnerável que encontra um homem decente depois de muitas desilusões na vida.

Num dos momentos mais prescientes do filme – talvez aquele em que Tarantino nos alerta com mais precisão para o advento das redes sociais –, nenhuma das personagens se deixa convencer por uma opinião diferente da sua e todas saem do pequeno-almoço exactamente da mesma forma que entraram.

Mas é a segunda discussão naquela cena, sobre o acto de dar gorjeta a uma empregada de mesa, que nos agarra pelos colarinhos e nos atira com violência para o meio de 2020, o ano em que o mundo distópico imaginado por Tarantino há quase três décadas se tornou realidade.

O que se segue são os diálogos que surgem no guião do filme, adaptados à pandemia de covid-19 e abreviados para efeitos de Facebook.

Nice Guy Eddie: “Vá lá, põe a máscara.”

Mr. White: “Uh-uh. Eu não uso máscara.”

Nice Guy Eddie: “Como assim, não usas máscara?”

Mr. White: “Não acredito no uso de máscara. Não uso máscara só porque a sociedade diz que tenho de o fazer.”

Mr. Blonde: “Então não te interessa que as outras pessoas fiquem com a vida em risco se tu não usares máscara?”

Mr. White junta o dedo indicador ao polegar e esfrega-os um contra o outro: “Sabem o que é isto? É o violino mais pequeno do mundo a tocar só para essas pessoas.”

A discussão acaba quando o líder do grupo, Joe, dá um murro na mesa e obriga Mr. White a dar gorjeta.

Joe: “Põe aqui o teu dólar e vamos embora. Estão a ver o que eu tenho de aturar? Crianças. Tenho de aturar crianças.”

Pode parecer forçado adaptar diálogos sobre a filosofia da gorjeta, escritos pela mente retorcida de Quentin Tarantino há quase três décadas, para falar sobre o uso de máscaras no auge de uma pandemia que já matou quase 700 mil pessoas em todo o mundo. Mas também há quem acredite que é possível “cancelar” multimilionários e outras pessoas influentes, à boleia de expressões como marxismo cultural e politicamente correcto, e isso não tem impedido os jornais de publicar essas opiniões.

E a verdade é que não é forçado imaginar uma conversa em que se ouvem coisas como “não acredito no uso de máscara”.

Em Junho, um grupo de vizinhos do Presidente norte-americano, Donald Trump, contestou a imposição do uso de máscaras pelas autoridades de saúde de Palm Beach, no estado da Florida. E alguns dos argumentos usados na reunião da câmara lá do sítio fariam corar de vergonha mentes retorcidas como a de Quentin Tarantino.

“Vocês querem deitar para o lixo o maravilhoso sistema respiratório criado por Deus”, disse uma das opositoras do uso de máscara. “Vocês não podem obrigar as pessoas a usar máscara quando sabem que essas máscaras estão literalmente a matar pessoas. Todos vós, que obedeceis às leis do Diabo, ireis ser detidos”, disse outra indignada habitante de Palm Beach.

É fácil descartar estas opiniões e fingir que são apenas excessos de maluquinhos. Mas quando o Presidente dos Estados Unidos da América demora seis meses, e quase 150 mil mortes, para partilhar o primeiro tweet em que se aproxima de uma recomendação para que toda a gente use máscara, esse longo silêncio é aproveitado por maluquinhos para reforçarem as suas convicções.

Foi para quem não percebe como funcionam estas coisas que Tarantino pôs Joe a acabar com a conversa sobre as gorjetas: “Crianças. Tenho de aturar crianças.”

Sim, até pode ser divertido pôr em causa o uso de máscara para nos protegermos de um vírus que causa doenças respiratórias, e estragar um pequeno-almoço inteiro com os nossos parceiros de crime. Mas em algum momento temos de sair das aulas de Filosofia do 10.º ano e seguir em frente com as nossas vidas. E isso só vai acontecer se dermos mais ouvidos aos Joes do que aos Donalds.

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