expresso.ptJosé Tolentino Mendonça - 1 ago 09:39

O tomista gentil

O tomista gentil

A trajetória de Frei Mateus Peres pesa para o lado da singularidade. Ele foi toda a vida um sereno tecedor de mediações; um construtor de síntese

Penso que é uma pena se, para lá do círculo da família dominicana, ficar por assinalar a partida dessa notável figura que foi, no Portugal contemporâneo, frei Mateus Peres, O.P. Ele começou por integrar uma geração de intelectuais que, nos anos 50 e 60, viveu o catolicismo de uma forma apaixonada e que, com a exaltação e as amolgadelas próprias dos estados de paixão, trabalhou sobretudo para dotar de cidadania cultural uma fé que tradicionalmente parecia não ter expressão pública fora das manifestações de piedade. Nomes como os de António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Portas, M. S. Lourenço e do próprio frei Mateus Peres, entre outros, desenharam em torno ao Concílio Vaticano II um inédito e vital espaço de pensamento teológico, debate e aggiornamento que sintonizou Portugal com a novidade e a viragem que se respiravam internacionalmente. À galáxia da editora Morais e das revistas “Concilium” e “O Tempo e o Modo” deve-se não só a introdução de nomes fundamentais da teologia contemporânea (Edward Schillebeeckx, Congar, Balthasar...), mas de textos clássicos da espiritualidade como “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, ou os “Fioretti”, de São Francisco de Assis, em traduções exemplares que atestam um desejo de dotar de credibilidade também literária a linguagem da experiência religiosa.

Os mais pessimistas dirão que todo esse movimento redundou num fiasco do ponto de vista eclesial, pois essa geração da Ação Católica Universitária (JUC) se dispersou depois em percursos de dissidência e solidão. Mas, a verdade, é que não podemos não ver que o rótulo de “vencidos do catolicismo”, que lhe ficou colado, alberga, no fundo, trajetórias muito diferenciadas e que obrigam a complexificar o olhar de conjunto a essa geração. Por exemplo, a trajetória de Mateus Peres pesa certamente para o lado da singularidade. Ele foi toda a vida um sereno tecedor de mediações; um construtor de sínteses. E disso fala o seu percurso na vida religiosa, onde foi um instigador teólogo moral, mas também, por mais de uma década, provincial dos padres dominicanos portugueses, e depois assistente do mestre-geral, com a responsabilidade de cuidar da vida intelectual, numa ordem que, há oitocentos anos, vive como sua missão específica associar a pregação a um aturado estudo.

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