eco.sapo.ptMariana de Araújo Barbosa - 31 jul 09:45

O “novo normal” está gasto

O “novo normal” está gasto

Fizemos um peeling �� normalidade: uma estratégia de auto-defesa, uma tentativa de vermos o lado bom da (má) crise. Estaremos à altura de criar um novo paradigma sem olhar para trás?

O “novo normal” está gasto: o termo preenche títulos de revistas e jornais, enriquece vocabulário, dá azo a reportagens – cá está mais uma, na revista que tem nas mãos. Tudo para tentar descrever a nossa “nova vida”.

Trabalhamos mais horas – ainda que, muitos de nós, em teletrabalho -, os webinars são acompanhamento assíduo de pequenos-almoços em família e os cursos de soft skills uma novidade pós-jantar. O trabalho remoto aparece, cada vez mais, nas ofertas de benefícios das empresas e, nos estudos, como uma possibilidade muito valorizada pelo talento. Discute-se o tema, fala-se das implicações que esta nova forma de trabalhar tem nas nossas vidas e antecipam-se cenários: fala-se até de uma realidade “esperada”, a do teletrabalho, tantas vezes falada e tão poucas implementada.

As empresas dizem-se aptas para recomeçar. E bem, que o termo é o certo. Recomeçar. O “novo normal” está gasto porque é da normalidade que – sempre – falamos. Ninguém começa do zero e não se apaga o passado. Mas, nesta altura, é preciso, mais do que uma pandemia, uma vontade generosa de mudar. E, claro, algo que falta a muitos de nós: a confiança no outro.

Estaremos prontos para deixar nas mãos dos colegas a gestão do seu próprio tempo? Estaremos preparados para entregar a nossa parte do trabalho a tempo, de maneira a que os timings sejam cumpridos sem prejuízo nosso e dos outros, e sem horas extraordinárias? Seremos capazes de olhar para o colega do lado com a confiança e o profissionalismo que, muitas vezes, só atribuímos a nós mesmos? O peeling forçado deve vir revestido de um “novo” pacote dentro de um recheio renovado.

A pandemia trouxe-nos a certeza de que, cheios de vícios, viciámos as nossas empresas de uma falta de confiança no outro. Liderar é ouvir, olhar para o outro como igualmente humano e confiar. E é preciso muito mais do que um peeling superficial para mudar isso.

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