rr.sapo.ptOpinião de Ana Sofia Carvalho - 31 jul 16:31

Os labirintos da ciência: a vacina para a Covid-19

Os labirintos da ciência: a vacina para a Covid-19

Além do desafio do tempo existem outros desafios que, eventualmente, poderão ser mais difíceis de ultrapassar na busca por uma vacina para a Covid-19.

A vacina da Covid-19 desperta em nós sentimentos contraditórios. Ou seja, se por um lado, com os dados hoje disponíveis, sabemos que sem ela não é possível um regresso ao “normal” (não coloco novo nem antigo; a incerteza é tanta e a tantos níveis que classificar o “normal” é hoje um golpe arriscado), por outro, a nossa perceção do tempo está de tal forma desregulada que nos é difícil distinguir o que é o tempo ficcional do tempo real.

Claro que os dados relacionados com o desenvolvimento de uma vacina não são, por certo, muito reconfortantes, ou seja o “antigo normal” indicava; 10-15 anos (em média) entre a investigação e a comercialização, taxa de sucesso de aproximadamente 10% e custos de cerca de 1 bilião de euros. O “novo normal” impõe aos investigadores que alterem o intervalo de tempo de 10-15 anos para 12-18 meses…

Mas, apesar do esforço colaborativo internacional e dos milhões que estão a ser investidos nesta área de investigação/tratamento/produção, estabelecer um prazo tão exíguo e tão desproporcionado relativamente ao “normal” é um desafio colossal. É muito atrevido impor um prazo destes à ciência

Além do desafio do tempo existem outros desafios que, eventualmente, poderão ser mais difíceis de ultrapassar; ou seja, a vacina terá que passar (1) os testes da qualidade (ser eficaz e segura), (2) da quantidade (ser passível de produzir em grande escala) e, além disso (3) ter custos aceitáveis de modo a permitir o seu acesso de forma equitativa e justa.

Qualquer um destes três desafios tem complexidades incomensuráveis.

Segundo os dados mais recentes, actualmente estão a decorrer 164 projectos de investigação, tendo 25 já passado à fase clínica, mas apenas cinco chegaram já à fase 3. Ou seja, para chegar a uma vacina com as características anteriormente elencadas, os investigadores necessitam de cumprir um conjunto de fases organizadas essencialmente em três blocos (A) Investigação; (B) Clínica e (C) produção e distribuição. É neste processo -- que, como irão ver a seguir, é extremamente complexo -- que temos de encurtar o limite temporal de 5-10 anos para 12-18 meses…

O primeiro bloco inclui duas fases distintas e sequenciais; primeiro há uma fase exploratória, com investigação de bancada (laboratório) e a fase pré-clínica, em que ocorre o estudo do efeito da vacina em modelos animais (p.e. ratinhos e primatas (não humanos)). Após resultados cientificamente seguros neste primeiro bloco é que se pode avançar para a fase clínica onde se testará o efeito da vacina em seres humanos através de diferentes ensaios clínicos. A fase clínica está dividida em três fases:

  1. avaliação preliminar com poucos voluntários adultos e saudáveis (em alguns estudos têm sido recrutados jovens saudáveis com cerca de 20 anos por serem considerados aqueles que sendo capazes de dar o seu consentimento livre e informado estão menos sujeitos aos riscos da doença) com monitorização e acompanhamento rigoroso;
  2. testes com um maior número de participantes que permitem obter informações sobre segurança, eficácia, dosagem e potenciais efeitos adversos. Normalmente nesta fase os participantes são de forma randomizada (aleatória) distribuídos por dois grupos: o grupo com a vacina a testar e um grupo controle (p.e com uma vacina “placebo”, ou seja, a injecção de uma substância sem qualquer potencial efeito terapêutico);
  3. ensaio em larga escala o mais representativo possível da população a abranger para validação cientificamente significativa da eficácia/segurança e dos potenciais efeitos adversos.

Após a conclusão com sucesso destas três fases, os resultados são apresentados às autoridades competentes (p.e. FDA - Food and Drug Administration nos EUA e EMA - European Medicines Agency na Europa) onde estes resultados são escrutinados no sentido de avaliar se existe robustez suficiente nos dados obtidos que permitam assegurar a eficácia e a segurança da vacina.

Se… e quando… isto der tudo certo teremos que entrar novamente num outro labirinto; como vamos garantir um acesso equitativo e universal à vacina. Vamos conseguir produzir 7 biliões de doses ou 14 biliões se forem necessárias 2 doses por pessoa? Se não, quem vamos priorizar na distribuição da vacina? Assuntos complexos a que voltaremos no próximo artigo…

Termino com uma “utilização abusiva” de uma frase de Einstein; “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”. Tentemos também que esta não seja uma “Triste época!” em que será mais fácil controlar um vírus do que controlar a desigualdade entre os seres humanos.

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