www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 31 jul 07:00

A miúda dos calções

A miúda dos calções

Foi pelo canto do olho que o vi: ele chamava-me para dentro do carro e ria-se do meu medo - Opinião , Sábado.
Naquela altura, fazer pendant era como subir de elevador ao terraço da feminilidade – só que eu, nessa matéria, vivia numa cave. Aos 10 anos, sem ver a utilidade da parte de cima do biquíni nem vontade de fazer origâmis de cabelo com elásticos e bandoletes, eu ainda só desconfiava do tanto que os outros iriam esperar que eu galgasse os degraus da escada desse arranha-céus feminino.

Naquele dia, eu estava a fazer pendant. Era verão no Ribatejo, o dia já ia longo e pastoso, e eu vestia uns calções rosa e uma T-shirt de riscas finas, rosas e azuis (toda a combinar, sentia-me um preview da coleção de verão da Cenoura) – era a imagem perfeita de uma miúda feliz. Regressava de uma aula de música, a trautear alguma coisa, quando o vi: um carro velho, lento e vermelho como o homem que o conduzia.

Digo que tinha 10 anos porque essa foi a idade com que deixei a escola naquela tarde – não posso, contudo, dizer que tenha sido essa a idade com que cheguei a casa. Muitos homens não sabem, mas às vezes fazem-nos crescer à força. Como se brincassem com plasticina, eles esticam-nos e voltam a esticar-nos até nós não podermos mais.

Foi pelo canto do olho que o vi: ele chamava-me para dentro do carro e ria-se do meu medo. Ria muito – não sei se mais do poder que tinha se do poder que me retirava. E ao mesmo tempo que me fazia crescer também me tornava a pele mais grossa. Comecei a perceber ali que os homens que veem as mulheres como plasticina não tentam quebrar todas as mulheres, de todas as maneiras, em todas as alturas. Eles escolhem.

Ali, naquele dia, foi a feminilidade que a minha roupa evocou que o fez querer ser mais homem. Naquele pendant, eu era mais uma boneca do que uma pessoa – e isso também lhe convinha porque me despersonalizava. Ali, eu era mais uma menina que uma miúda. E culpei-me, como fazem todas as mulheres. Tem graça pensar nisso agora: hoje, que sou muito mais mulher, aquele homem não teria vontade de se rir de mim – e se tivesse teria de me ver a rir por último.
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