www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 30 jul 16:31

No final, o que conta é o like?

No final, o que conta é o like?

Penso muitas vezes na responsabilidade de, como algumas pessoas dizem, ter uma voz. - Opinião , Sábado.
Poder publicar um podcast e artigos de opinião ou num perfil de Instagram que, muitas vezes, tem mais comentários do que likes. Eu acho sempre que não tenho voz nenhuma, que ninguém lê ou quer saber e, mesmo assim, vou continuando porque, de vez em quando, recebo mensagens ou comentários que provam que, afinal, tudo o que afirmamos pode influenciar a vida de alguém. Neste caminho, só quero influenciar de forma positiva, sem as tretas do costume, usando a minha voz - a tal de que se fala - para dizer o que penso e pensar sobre o que devo dizer. Da mesma forma que Bruno Candé e o racismo que não existe em Portugal (por favor…) é incontornável, também as vozes femininas que nos chegam da Turquia merecem ser ouvidas mesmo que, pelo caminho, a mensagem se tenha distorcido ou afastado do objectivo inicial. Mantendo o princípio de que precisamos manter-nos unidas - sim nós e as cabras também - porque ainda há um longo caminho a percorrer em direcção a uma sociedade verdadeiramente igualitária - note-se que Portugal é igualitário e que há sítios piores para viver mas afirmar que este não é um país conservador, tradicional, machista e patriarcal é só brincar com as palavras. Os inúmeros exemplos que me surgem de imediato na memória provam o contrário. Avante que nada disto é sobre mim, antes sobre o privilégio que tenho em poder dizer o que penso e ter quem me publique sem, antes, verificar palavra a palavra cada ideia ou intenção. Estou grata por isso como estou grata por saber defender-me e ter uma voz, meios e ferramentas que me permitem não ser vítima de violência, seja ela qual for - e ter uma ideia sobre o que fazer caso alguma vez tal me venha a acontecer. Muitas mulheres não têm esta liberdade ou privilégio porque são mulheres. Apenas isso.

Relacionado Ensinar e aprender: as duas faces de um desígnio sebastianista que nos leva a emigrar A incompatibilidade entre morte e a cura. Para onde caminha a (nossa) vida? Em Portugal os números da violência contra as mulheres são inequívocos e provam que precisamos evoluir. O relatório do Ministério da Administração Interna, divulgado em Abril, mostra que o confinamento fez diminuir a criminalidade mas aumentou o número de denúncias de violência doméstica por parte de amigos e familiares. Contudo, o número de queixas diminuiu: será porque a vítima não pode ou consegue queixar-se? É também este o panorama na Turquia, de onde nos chega um apelo que já circula no instagram e que arrisca a transformar-se naquilo em que tudo o que chega ao instagram tende a transformar-se: um imenso mar de likes e publicações presas a uma hashtag que representam um número que não é mais do que isso, um grande número de pessoas em torno e uma causa cujo princípio se perde no tempo. Quando um rapaz que não publicava nada no instagram desde 2017 faz uma publicação na qual explica o que é, afinal, este desafio de partilhar uma fotografia a preto e branco, percebemos que há muito a saber por trás desta ideia de nomear vinte mulheres para nos empoderarmos mutuamente. Desconheço este turco que, entretanto, deu voz e rosto a muitas mulheres vítimas de feminicídio, acrescentando que os números reais são desconhecidos, num contexto social de aceitação, jurídico de não punição e policial de não perseguição. Conta-nos, também, que o Governo turco está a tentar abolir alguns aspectos da Convenção de Istambul (um tratado pelos direitos humanos que protege as mulheres contra a violência doméstica), sendo esta a razão pela qual o desafio começou: o assassinato de uma jovem de 27 anos e a necessidade de dar voz às mulheres que a perderam, provando que, afinal, no instagram nem tudo tem de ser uma mera questão de likes. Só me pergunto porque razão abraçamos tão depressa as dores dos outros quando temos exemplos tão recentes sobre os quais pouco se fala e sobre os quais muito pouco ainda se fez.

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