www.publico.ptpublico@publico.pt - 1 jul 09:11

O astronauta na Terra

O astronauta na Terra

A realidade é essa, o astronauta já existe na Terra, e somos todos nós. Não no sentido literal da palavra (viajantes espaciais), mas no sentido em que dependemos inteiramente de tecnologia para sobreviver num ambiente inóspito.

É senso comum pensar no planeta Terra como um local hospitaleiro, aprazível e particularmente adaptado para nele sobrevivermos. Assim como é senso comum pensar na Lua ou em Marte como locais inóspitos e hostis, fundamentalmente ameaçadores a qualquer humano que lá se encontre.

No entanto, esta é uma noção enganadora, pois reveste-se de um importante viés exposto por David Deutsch no seu livro O Início do Infinito (2013), e que tentarei desmontar nos parágrafos seguintes:

Consideremos os primórdios da espécie humana, no berço da humanidade que foi o Vale do Rift, na costa Este de África. Como era o dia-a-dia dos indivíduos nessa época? Nómadas, deslocavam-se grandes distâncias em busca de alimento, não sendo incomum morrer simplesmente de fome. Sem um abrigo fixo, estavam expostos ao frio, aos predadores e, claro, à doença. Uma simples infecção dentária podia ser fatal e o parto era perigosíssimo. Quando um membro do grupo adoecia, ou sofria um ferimento incapacitante após uma caçada, se não conseguisse acompanhar os restantes na nova viagem, era simplesmente abandonado. Não é portanto de estranhar que seja raro encontrar fósseis de indivíduos idosos, já que a maioria morria na juventude. 

Podemos olhar para a questão de outra forma: sabemos que a dimensão populacional nessa altura era muito pequena. O que impediu esses humanos de ter um crescimento significativo do seu número? Só há uma resposta possível: a miséria. Uma miséria atroz para nós hoje difícil de conceber, com todo o sofrimento a ela associado. Eram essas as condições providenciadas pelo hospitaleiro, adaptado e aprazível planeta Terra, que são sensivelmente as mesmas de hoje. 

Então, o que mudou? 

O que mudou foi a paulatina capacidade desta curiosa espécie, de alterar o ambiente à sua volta. Fruto da sua criatividade gerou o conhecimento que permitiu alcançar vidas incrementalmente menos miseráveis. E este processo foi lento, longo, quase imperceptível pela gradualidade com que cada etapa se instala. Roupa para proteger do frio. Armas para caçar. O domínio do fogo. Agricultura, com o consequente sedentarismo, com melhores abrigos e eventualmente pequenas “aldeias”. Estruturas em pedra. A roda. Utensílios em bronze. E por aí fora, de inovação em inovação, até aos nossos dias.

Há uma característica muito interessante na natureza iterativa desta progressão tecnológica: pensemos, por exemplo, na roupa. Hoje não pensamos na roupa como uma tecnologia, é um dado adquirido que faz parte da nossa vida quotidiana, não nos exige esforço em especial nem nenhum grau notável de manutenção. Mas a invenção da roupa teve consequências importantíssimas ao permitir a essa espécie, que só conseguia subsistir em África, expandir-se para outras regiões do mundo sem sucumbir aos climas mais frios. As primeiras roupas seriam certamente menos confortáveis, menos duradouras, exigindo mais esforço e tempo dos indivíduos para delas poderem beneficiar, mas, a pouco e pouco, tornaram-se um dado adquirido no qual já nem pensamos.

Outro exemplo mais moderno: a medição do tempo. Hoje em dia é impensável que uma pessoa não saiba as horas, tem sempre o relógio no punho ou o smartphone no bolso, ou outras formas de saber rapidamente que horas são, ao segundo. No entanto, até há bem pouco tempo não era assim, a noção do tempo para a maioria da população era uma noção aproximada, balizada pelos badalos da igreja. Hoje já mal pensamos em saber as horas como uma conquista, e no entanto é esta conquista que abre o caminho aos sistemas de geolocalização por GPS, que se baseiam em medições de tempo precisas a uma ordem de grandeza ínfima, e que, por sua vez, estão a transformar também a nossa percepção do sentido de orientação, em mais um conceito que se começa a pôr de parte como um dado adquirido, do qual nem nos lembramos ser um conforto arduamente conquistado pela nossa progressão tecnológica.

É todo este conhecimento instanciado em tecnologia que nos permite viver vidas confortáveis sem sequer pensarmos nas inúmeras coisas que tornam possível a nossa subsistência confortável e que nos faz ver o planeta como hospitaleiro e aprazível. Coisas como os sistemas de aquecimento para nos proteger do frio, a canalização para nos dar acesso a água potável, a rede eléctrica que habilita toda a nossa tecnologia mais moderna, o acesso à informação desde o rádio até à Internet... É esse conhecimento que damos (correctamente) por adquirido que nos permite viver tão confortavelmente no frio da Noruega como no calor da Austrália, que sem a tecnologia seriam muito mais inóspitos do que o Vale do Rift.

Tendo percebido os conceitos expostos acima, podemos chegar a Marte ou à Lua com apenas um pequeno salto conceptual.

É de facto senso comum achar que pessoas a viver numa colónia instalada em Marte vão estar numa situação fundamentalmente diferente de quem está na Terra. Mas esse, como diria Deutsch, é um erro paroquial. Pois, como vimos antes, uma vez instalada a tecnologia necessária para suprir necessidades diárias (imaginemos um sistema automático de fabrico de oxigénio a partir de óxidos de metal ou um sistema de protecção de raios UV), o indivíduo a viver em Marte vai tanto temer o perigo do vácuo e da falta de oxigénio como nós, aqui na Terra, tememos o perigo de ficar encharcados pela chuva que cai lá fora, enquanto nos sentamos confortavelmente no sofá de casa.

A realidade é essa, o astronauta já existe na Terra, e somos todos nós. Não no sentido literal da palavra (viajantes espaciais), mas no sentido em que dependemos inteiramente de tecnologia para sobreviver num ambiente inóspito.

E para o leitor mais céptico, finalizo o texto com um pequeno exercício mental.

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