www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 1 jul 08:22

Página em branco.

Página em branco.

Não pensei ao longo dos últimos dias sobre o que havia de escrever. Limitei-me a abrir uma página em branco e deixar que fosse ela a dizer-me o que escrever. - Opinião , Sábado.

Há 24 terças-feiras que cumpro o mesmo ritual: abro uma página em branco. Abro uma página em branco no meu computador. Gravo essa página em branco com a data de amanhã que, para quem lê, é a data de hoje. Acrescento-lhe um título, e deixo fluir para o papel o que fui trabalhando, consciente ou inconscientemente, ao logo dos último 8 dias.

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Hoje (ontem) não foi assim. Abri uma página em branco. Gravei-a com a data correta. Não lhe dei um título. Não pensei ao longo dos últimos dias sobre o que havia de escrever. Limitei-me a abrir uma página em branco e deixar que fosse ela a dizer-me o que escrever. Afinal uma página em branco é um livro de oportunidades que se abre.

Ao mesmo tempo que abri uma página em branco, criei o mesmo espaço para as notas musicais que escorrem da pequena coluna que ornamenta o ambiente do meu improvisado escritório. Não escolhi a música. Deixei que viessem ter comigo as notas que lá estavam prontas para sair. E foi assim que o Jacob Schwarz Trio me disse: "I Could Write A Book". E não é que é mesmo verdade. E não é que deixar espaço e tempo para que "as coisas" aconteçam nos ajuda a fazer "as coisas" acontecer!

Lembro-me do primeiro livro que escrevi. Aquele que nunca viu o prelo. Quando comprei o livro que escrevi, já vinha com título e tudo. Quando comprei o livro que escrevi, já vinha paginado e tudo. E foram tantos os exemplares daquele livro que se venderam. E tantas as cópias que se lhe seguiram. E tudo isto sem que eu lhe tivesse dedicado, sequer, uma única palavra. O livro que eu escrevi já o era antes de eu o ser. Adorei aquele "Livro em Branco". O mesmo livro que volto a encontrar todas as terças-feiras desde que aqui estamos. Às quartas.

Todos os que aqui estamos a cruzar, em conjunto, estas linhas, temos nos livros fontes. Fontes das mais variadas correntes e caudais. De inspiração, de conhecimento, de prazer, de descanso, disto e de mais daquilo. Não devemos enjeitar uma boa oportunidade para ler.

E se essas linhas que lemos estivessem por escrever? E se os nossos livros fossem em branco? Como seria se as linhas que nos alimentam estivessem por inventar, por ser criadas e registadas? Como seria? Que palavras gostaríamos de ler sabendo que seríamos nós quem as iria escrever?

Não digo que não devamos ler a escrita dos outros. Seria um contrassenso estar a defender essa tese e a escrever ao mesmo tempo, embora seja assumido que escrevo também para mim. Aliás, a criatividade alimenta-se da criatividade alheia. O que é de salutar.

A questão que coloco nesta metáfora mal amanhada é a de saber quantas vezes nos colocamos na frente de "páginas em branco"? Quantas vezes decidimos que é chegado o momento de retirar as linhas escritas da nossa frente e deixar emergir um vazio que a nós cabe preencher.

A sempre e imensamente citada Brené Brown diz de forma muito clara que "ousar estabelecer limites é ter a coragem de nos amarmos, mesmo quando corremos o risco de dececionar os outros".

Abrir uma página em branco que nos permita refletir sobre o nosso próprio caminho, sobre as linhas que queremos escrever e a história que desejamos ouvir ser contada, é uma forma de definirmos os nossos limites, as nossas fronteiras, de escrevermos a nossa história e de criarmos as condições ideias para a viver. Ousar não fazer este caminho, pode fazer-nos incorrer no risco de estarmos a ler um maravilhoso livro que outro escreveu e que no final não nos tem dentro, mas nos terá sempre de fora daquela história. Podemos estar a viver uma história que não é a nossa.

Parar e, de quando em vez, abrir uma página em branco e deixar a tinta fluir não nos retira do caminho que fizemos até ali, nem nos coloca, necessariamente, fora da rota em que estávamos envolvidos. Cria-nos a oportunidade de afinarmos a rota e de nos assegurarmos que sabemos em que caminho estamos envolvidos.

Os vários caminhos que a minha vida me tem oferecido e as escolhas que tenho feito à volta desses caminhos têm mostrado a importância dos momentos de paragem. Têm-me mostrado a importância de não nos esquecemos de ir escrevendo as páginas em branco com as nossas próprias palavras. De irmos definindo o nosso propósito.

E, claro, nunca enjeitar uma boa oportunidade para ler, pois nas palavras dos outros podem estar também a inspiração para a escrita da nossa própria história.

A este propósito cito, ao fechar esta página em branco, o Dr. Tal Ben-Shahar: " Quando falamos de uma vida significativa, falamos frequentemente da existência de um sentido de propósito. O que muitas vezes não conseguimos reconhecer é que, encontrar este sentido de propósito, implica mais do que estabelecer metas. Ter metas, ou mesmo atingi-las, não garante que estejamos a viver uma existência com sentido. Para termos uma noção de propósito, as metas que estabelecemos para nós próprios devem ser intrinsecamente significativas. (…) Para termos uma vida significativa, devemos possuir um propósito autogerado que possua significado pessoal e não um propósito ditado pelas normas e expetativas sociais".

Boa escrita. 

João Laborinho Lúcio, Coach credenciado pela ICF - International Coaching Federation

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