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A táctica do quadrado

A táctica do quadrado

Com a subtileza de um pão-de-ló de Alfeizerão, António Costa desconfinou temporariamente a inteligência para considerar o ceptro dos estalajadeiros-mor da UEFA como “um prémio aos profissionais de saúde”. - Opinião , Sábado.
635 anos depois de Aljubarrota, alcançámos novo feito para o orgulho pátrio com o triunfo na Liga dos Campeões de 2020, perdão, com a honra de servirmos de albergue à final eight do maior torneio futebolístico da Europa – e quem diz da Europa diz do mundo, porque menos do que melhores do planeta não seremos no campeonato das tabernas. E tudo graças à mesma estratégia do século XIV: a táctica do quadrado. Os povos eleitos, com figuras messiânicas, honrarias de conquistadores, quinto-impérios e pastéis de bacalhau no CV milenar, movem-se numa intemporalidade única, que as raças inferiores desconhecem.

Foi pois em quadrados perfeitos, inexpugnáveis na sua lisura sanitária, que o Presidente da República, o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República, o presidente da Câmara de Lisboa e o presidente da FPF (só faltou o vencedor do último campeonato português de cocktails) se apresentaram para anunciar a vitória, numa vanguarda apeada protegida nas alas por arqueiros, besteiros e secretários de Estado. Com a subtileza de um pão-de-ló de Alfeizerão, António Costa desconfinou temporariamente a inteligência para considerar o ceptro dos estalajadeiros-mor da UEFA como "um prémio aos profissionais de saúde". Em discurso prévio, devidamente enquadrado mas redondo como uma bola oficial FIFA, Marcelo já lacrimejara que "somos uns heróis", com a DGS a gritar ao cubo o triunfo, sentenciando: "Quanto maior o número de visitantes, melhor" (Graça Freitas, 17/06/20).

Todos ganharam direito à felicidade: ao contrário do anunciado, o mundo não acabou no domingo, as docas de Lisboa encheram-se de maralhal, a praia de Carcavelos recebeu mil bebedolas em festa e os simpatizantes de grandes equipas da Premier League ou do calcio, vindas de países incapazes de organizar uma final four (quanto mais uma final eight) mas em alucinante recuperação pandémica, poderão juntar-se aos foliões de Odiáxere e aos 350 sintrenses ou alfacinhas que a cada jorna disputam o campeonato da vida para testarem outra vez os poderes sobre-humanos dos médicos e enfermeiros do SNS. Os verdadeiros heróis adoram desafios, e que maior prémio a um guerreiro patriota do que nova batalha épica?

Após o último jogo no Estádio da Luz, a 23 de Agosto – se uma manada de adolescentes ou um meteorito maia não estourar com isto antes –, estadistas, anestesistas e futebolistas poderão festejar em uníssono mas de máscara, cada um no seu quadrado de dança, traçado com a destreza de um Nun’Álvares Pereira no piso de discoteca mais perto de si. W

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico capa Assine já a Sábado digital por 1 euro para ler este artigo no ePaper ou encontre-o nas bancas a 24 de junho de 2020.
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