expresso.ptexpresso.pt - 30 jun 19:11

A Antártica está a aquecer, três vezes mais rápido que o resto do mundo

A Antártica está a aquecer, três vezes mais rápido que o resto do mundo

A parte mais gelada do planeta, que os cientistas pensavam estar imune ao aquecimento global, é afinal a que mais sofre com as alterações climáticas, e a um ritmo três vezes superior, revela uma investigação publicada no "The Guardian"

O polo sul está a ser um dos lugares do planeta que mais se ressente com os efeitos das alterações climáticas, e três vezes mais rápido que o resto do mundo. É o que revela uma investigação publicada no jornal "The Guardian", que conclui ter havido nos últimos 30 anos "mudanças dramáticas e abruptas" no interior da Antártica, região que os cientistas acreditavam não estar muito exposta aos efeitos do aquecimento global.

Mas, ao contrário do que a comunidade científica tomava por certo, a porção de terra mais gelada do planeta é, afinal, aquela que está a sofrer com "uma vaga de aquecimento sem precedentes", a um ritmo três vezes mais acelerado do que outras partes do globo, numa tendência que ameaça continuar a subir nos próximos anos, segundo adverte o estudo.

"O polo sul não é imune ao aquecimento", frisa Kyle Clem, cientista de clima da Victoria University of Wellington, no artigo publicado no "The Guardian", onde também relata a sua viagem à Antártica, destacando "o som dos icebergues a derreter".

As recentes pesquisas indicam que as alterações no interior da Antártica nos últimos 30 anos resultam de efeitos conjugados entre a variabilidade natural dos trópicos com o aumento de gases com efeito de estufa.

"Tenho argumentado com os meus colegas que estas tendências de aquecimento não são só resultado das naturais variações de clima. Os efeitos das mudanças de clima feitas pelo homem parecem ter trabalhado juntamente com a influência significativa que as variações nos trópicos têm no clima da Antártica. Ao atuar em conjunto, fazem com que o polo sul seja alvo de uma das mais fortes tendências de aquecimento na Terra", explica o cientista.

Ao mesmo tempo que o polo sul, também o oceano Pacífico começou a aquecer

Com temperaturas que variam entre 60 graus centígrados negativos no inverno e 20 graus centígrados negativos no verão, a Antártica é a zona mais fria do globo, e tem naturalmente grandes oscilações, em diferentes alturas do ano, além de elevados contrastes regionais. Segundo Kyle Clem, grande parte da Península do Ártico e a oeste da Antártida entraram em processo de aquecimento no final do século passado, enquanto o polo sul, a zona remota e de alta altitude no interior continental, entrou em arrefecimento até aos anos 1980.

Segundo apurou a análise do "The Guardian", as temperaturas registadas na estação Amundsen-Scott no polo sul subiram 1,8 graus centígrados entre 1989 e 2018, e a um nível mais acentuado a partir de 2000. No mesmo período, o aquecimento a oeste da Antártida parou subitamente e a península da Antártida começou a arrefecer.

Ao mesmo tempo que o polo sul, também o oceano na zona oeste do Pacífico começou a aquecer rapidamente, revela ainda o estudo - avançando que cerca de 20% das variações de temperatura no polo sul a cada ano estão relacionadas com as temperaturas do mar no Pacífico tropical, e que uma série de anos mais quentes no polo sul nos últimos vinte anos ocorreram quando a temperatura deste oceano estava invulgarmente quente. Já era sabido, por anteriores estudos, que as fortes variações de temperatura regionais nesta zona se devem, em parte, ao formato da Austrália.

"A variação de temperatura no polo sul é tão extrema que consegue mascarar os efeitos causados pelos humanos. O interior da Antártida é um dos poucos sítios na terra onde o aquecimento gerado por ações humanas não pode ser determinado de forma precisa, o que significa que é um desafio afirmar se o aquecimento vai continuar, e por quanto tempo", conclui o cientista.

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