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A sétima onda do terrorismo

A sétima onda do terrorismo

O terrorismo é inútil e raramente alcança os objetivos que, ocasionalmente, consegue traçar. - Opinião , Sábado.

Qualquer terrorista sabe que o terrorismo nunca vencerá, mas a sua crença e o seu ódio ao outro, conduzem-no a um universo desfasado desta análise crua da realidade. O terrorismo é inútil e raramente alcança os objetivos que, ocasionalmente, consegue traçar.

Surge como recurso estratégico por razões de fraqueza e não de pujança. Emerge de uma vontade que pretende indignar e intimidar o outro. O terrorismo acabou sempre por desfalecer. Exceção feita aos movimentos de libertação que se viram transformados em partidos políticos e instituições oficiais de novos estados.

Desde o final da Guerra Fria que as vítimas humanas da violência ou de conflitos de natureza política têm vindo a decrescer. A guerra deixou de ser um fenómeno de exércitos, sendo a maioria desses atos de violência política perpetrados por atores não estatais como grupos terroristas ou de guerrilha, frequentemente a operarem em ambientes de estados colapsados.

Foi neste contexto de caos que o terrorismo transnacional de inspiração salafi-jiadista se afirmou como o mais ativo e competente da era moderna. A sua arma predileta do bombista-suicida, que prometia colocar em sentido os seus inimigos no mundo ocidental, banalizou-se e perdeu a eficácia psicológica.

O terrorismo alcançou picos de vítimas em 2001, com os ataques do 11 de setembro perpetrados pela Al Qaeda, e entre 2014-15, com o rebranding da rede jiadista para organização terrorista estado islâmico (OTEI). A qual também procurou um reposicionamento no mercado da jiade. Num contexto, segundo os dados mais recentes, em que, ano após ano, o número de ataques terroristas tem vindo a diminuir.

No plano geográfico, mais de 90% dos ataques terroristas ao nivel mundial, concentram-se em meia dúzia de países (Iraque, Síria, Iémen, Afeganistão, Nigéria e Somália). Mesmo, no agora mediático Sahel, nos primeiros meses de 2020, o terrorismo provocou cerca de 500 vítimas mortais.

Distopia do presente

Sabemos que as ameaças são empoladas e retratadas como difíceis de gerir, através da utilização de vocabulário impreciso e obscuro. O objetivo por parte dos interessados é maximizar o problema para justificar as respostas. O exemplo é a "guerra global contra o terror", que poderia ter sido tratada como uma ação de contra terrorismo ou como mera atividade criminosa, mas viu-se transformada em operações militares de "construção de nações".

A evolução e consequências da pandemia de Covid-19 (C19) e os seus impactos geopolíticos obriga os analistas (e os próprios grupos terroristas), a fitarem, sob outra ótica, os fundamentos e as realizações da ameaça terrorista.

O C19 conduziu à paralisia das sociedades ao nível global através do medo do contágio universal e consequente possibilidade do confronto individual com o inimigo invisível.

Algo que o terrorismo salifi-jiadista sempre tentou concretizar, mas que nunca conseguiu instituir, através do sentimento de medo irradiado pelos seus atos de terror indiscriminado e apocalíptico.

O C19 veio acelerar um processo de "desradicalização" e desmotivação que já se encontrava em curso entre as hostes jiadistas pós "califado". O vírus veio impor o futuro distópico que a jiade global pretendia usar para subjugar o mundo ocidental.

O C19 possui aquela capacidade de desmoronar os valores democráticos e as liberdades individuais, que a jiade sempre ambicionou, mas que ficou longe de alcançar.

Para compreendermos o futuro do terrorismo, faz sentido descrevermos a história do terrorismo moderno em quatro vagas (David Rapoport), quatro períodos históricos que correspondem a quatro estirpes de terrorismo: anarquista, anticolonial (nacionalista), revolucionário (extrema-esquerda) e religioso.

Estaremos nós, então, a assistir ao quebrantar da quarta vaga, correspondente ao terrorismo religioso, cuja força cinética é o Islão?

A longa caravana da jiade global

Para compreendermos a fadiga do terrorismo salafi-jiadista efetuemos uma breve análise da ascensão da grande vaga religiosa, através das suas ondas (fases) sucessivas.

Decorria o ano de 1979 quando começava a ganhar energia a mega vaga religiosa, tendo no Islão o roteiro programático de atuação, principalmente no Irão, através da revolução xiita. Na realidade, o Irão é o primeiro "estado islâmico" moderno. Para o grande aiatola Khomeini não haveria fronteiras entre os povos muçulmanos, e a expansão maometana deveria (e deve) culminar com a conquista de Jerusalém, e ser alcançada através da promoção do jiadismo violento.

Esta primeira onda que irá ter como protagonistas o Irão e seu perfilhado Hizballah do Líbano, viu nascer o bombista-suicida (martírio moderno) como arma de eleição e expoente máximo do terror salvífico. No final da década de 1980 a revolução iraniana e a tentativa da sua exportação perdia força com o fim da guerra Irão-Iraque.

Será em 1988, com a criação Al Qaeda por Ossama bin Laden (OBL) e Ayman al-Zawari no Afeganistão, com vista a combater o império comunista ateu, que começa a ganhar forma a jiade global, de origem sunita e, por conseguinte, a sua segunda onda. A mobilização de combatentes (mujahidins) oriundos de todo os domínios muçulmanos (para a qual foi fundamental a guerra dos Balcãs) irá em crescendo até aos atentados de 11 de setembro de 2001.

Com o início da persecução à Al Qaeda, através da invasão militar norte-americana do Afeganistão, assiste-se ao desmembramento e atomização da rede terrorista. O seu líder OBL, só não é capturado nas montanhas do Afeganistão, onde se encontrava encurralado, porque os recursos militares foram desviados para a nova prioridade externa da Administração Bush, o Iraque.

Depois de 2001, emerge um ciclo de ataques contra cidades importantes, inclusivamente capitais: Bali (2002), Riade (2003), Casablanca (2003), Madrid (2004), Londres (2005), entre outras. Esta terceira onda corresponde ao processo de aceleração da "al qaedização" do mundo muçulmano. O número de ataques suicidas sobe exponencialmente, após 2001, com mais de 80% deste tipo de ataques a serem cometidos desde então.

Com a invasão militar do Iraque, em 2003, começa a desenhar-se a quarta onda da jiade global, caracterizada pelos múltiplos e violentos ataques suicidas no interior do Iraque perpetrados pela Al Qaeda e pelas milícias xiitas pró-iranianas, contra os soldados norte-americanos no terreno. Tanto no Iraque como no Afeganistão, a presença do inimigo ocidental contribuiu para a agregação e coesão do jiadismo.

O refluxo começa a sentir-se em 2006 quando a Al Qaeda no Iraque é enfraquecida e o seu cabecilha é morto, o facínora jordano Abu Musa’b al-Zarqawi.

A quinta onda da jiade, ocorre entre 2009-2011, com o surgimento da Al Qaeda na Península Arábica (Iémen), liderada pelo americano-iemenita Anwar al-Awlaki. O mártir islamista al-Awlaki ajudou a adaptar a jiade a uma audiência ocidental e inovou ao conferir-lhe um novo poder de sedução, deixando o seu timbre pessoal na criação da revista Inspire.

Al-Awlaki reescreveu o livro de estilo da jiade que viria a ser fundamental para atrair os combatentes estrangeiros para o futuro teatro de guerra da Síria e do Iraque. A estratégia de comunicação surge no centro da jiade global. A revolução das redes sociais dará o seu impulso para a próxima fase.

O recuo da jiade após a morte de OBL e al-Awlaki (ambas em 2011), só será compensado pela emergência do OTEI em 2014. As primaveras árabes irão criar o contexto ideal para em 29 de junho de 2014, al-Bagdadi se auto proclamar califa e reestabelecer o Califado abolido por Ataturk em 1924.

No início, a estratégia do OTEI assentava na conquista da Síria e, em especial, do Iraque. Esta estratégia só não vingou devido à aliança militar tácita entre as forças pró-iranianas, no terreno, e a Força Aérea norte-americana, nos céus, que bloquearam o blitz do OTEI sobre a capital Bagdad, a escassos 60 km do objetivo final (por alturas do eixo Tikrit-Samarra).

Dado o fracasso da estratégia inicial, al-Bagdadi decide levar a cabo uma campanha de terrorismo internacional, principalmente em solo europeu: Paris (2015 e 2016), Berlim (2016), Bruxelas (2016), Nice (2016), Barcelona (2017), Manchester (2017), entre outras cidades, representam alvos inopinados dessa expansão.

Em quatro anos (2014-2018), a atividade do OTEI provocou mais de 1500 ataques terroristas em todo o mundo (apenas a América Latina terá escapado). Contudo, o controlo territorial que o OTEI exercia na Síria e no Iraque foi-lhe retirado e a morte do seu lider al-Bagdadi em 26 outubro de 2019, ditou o fim da reencarnação do segundo "estado islâmico" moderno e da sexta onda da jiade.

Outras estirpes de terrorismo

Muitos afirmam que a pandemia só veio agravar o ambiente de insegurança internacional, e que a sua mistura com o terrorismo transnacional poderá ser, finalmente, aquela "tempestade perfeita". Outros já esqueceram o fenómeno do terrorismo e transformaram-se em especialistas epidemiológicos.

Em tempos de pandemia, podemos seguir algumas pistas para tentar entender os caminhos do terrorismo transnacional. Tentar aferir, em que medida o terrorismo salafi-jiadista não alcançou o seu ponto de exaustão e finalmente compreendeu que nada pode fazer contra a vontade do adversário, sendo a sua vitória impossível.

Os grupos e atores pertencentes a outras estirpes de terrorismo parecem ter alcançado a exaustão. Compreenderam que nada é fazível contra a vontade do adversário, extinguiram-se. Recordem-se exemplos, ainda recentes, da queda do Exército de Republicano Irlandês-IRA (1917-2012), dos Tigres de Libertação do Tâmil-Tamil Eelam (1976-2009), ou do País Basco e Liberdade-ETA (1959-2018), entre muitos outros.

De todos os tipos de terrorismo, exceto o religioso, aquele que mais apto se apresenta em beneficiar do crescente clima extremismo e polarização social global, é o terrorismo de extrema-direita.

Esta estirpe, em que proliferam os lobos solitários (domésticos/nacionais), nunca produziu uma vanguarda iluminada e uma militância transacional agregadora e coesa. Até hoje, não dispuseram de massa crítica para projetar a sua ideologia e violência no plano internacional.

Os seus alvos costumam ser aleatórios e sem nexo na violência política contemporânea (destruição de propriedade, fogo posto, motins, massacres com armas, etc.). Por vezes, estão relacionados com violência de rua e gangues (motards, etc.).

Os dois principais ataques associados a indivíduos de extrema-direita, ocorridos durante a última década, na Noruega em 22 de julho de 2011 e na Nova Zelândia em 15 de março de 2019, não almejaram criar o efeito avalancha pretendido pelos seus autores. Portanto, falta ao terrorismo de extrema-direita a força da inspiração e a vontade da unidade para se sustentar como ameaça transnacional credível.

A 5ª vaga?

Durante a quarta vaga, a religião deixou de ser o ópio do povo resignado e passou a ser o estimulante das massas descontentes, prometendo a violência apocalíptica e salvífica.

Os grupos terroristas que nele participaram ganharam um vigor ideológico, um sentido de camaradagem e uma partilha de destino entre os seus combatentes, sem precedentes nas vagas anteriores. Ter como audiência e campo de recrutamento os crentes de uma religião, será bem diferente do que falar ao coração da nação ou à razão dos partidários.

Agora, coloca-se a questão de aferir em que medida o terrorismo salafi-jiadista não alcançou o seu ponto de exaustão? O ambiente estratégico pós pandémico não lhe é favorável.

A retirada das forças militares norte-americanas do Médio Oriente, deixa os grupos terroristas no terreno sem um inimigo à altura da sua reputação. Os radicais e extremistas perdem um interlocutor e a confirmação in loco de uma visão binária do mundo.

Os terroristas sentem-se despromovidos, perderam reconhecimento, e esta perceção irá acentuar-se com o emergir da China e da Rússia como as principais ameaças para a segurança nacional dos EUA.

O discurso de legitimação da violência terrorista e da conquista de adeptos na opinião pública ocidental sairá enfraquecido com a ausência ou escassez de ações de tortura, assassínios seletivos e abusos militares habituais no combate ao terrorismo.

O isolamento internacional torna-se inevitável, devendo reemergir as animosidades entre os atores locais e regionais. Neste contexto, os despojos do OTEI (estimam-se em cerca de 4000 combatentes Síria e no Iraque), terão de reerguer a estrutura e recauchutar a ideologia. Para tanto, têm duas vias possíveis: aumentar a competição com a Al Qaeda ou trilharem um caminho de convergência e fusão entre as organizações.

O atual líder turcomano do OTEI, Abu Ibrahim al-Hashimi al-Quraishi, (o primeiro não árabe) terá de procurar um novo "momento" de atuação e preparar em tempo útil o contra-ataque, antes que se torne demasiado tarde para recompor os destroços.

As táticas também terão de ser inovadoras e impactantes. O que não será fácil de alcançar dadas as medidas de segurança passiva que existem hoje em quase todas as sociedades e o legado de atrocidades e massacres visualmente chocantes cometidos pelo seu antecessor.

Como ultrapassar estes constrangimentos? Todas as seis ondas da jiade global, acima inumeradas, tinham fatores de diferenciação que provocaram a rutura e a evolução. Agora al-Quraishi terá de descobrir um modus operandi mais eficaz e ultrapassar o legado recente.

Será desta vez que os terroristas irão adquirir e empregar, contra o ocidente, uma dirty bomb (bomba suja)? Terá chegado o momento do terrorismo nuclear ou dos biohackers? Estas ameaças pairam no discurso do contra terrorismo há pelo menos duas décadas e não aparentam hoje que estejam mais perto de se concretizar.

O terrorismo guerrilheiro procurará novas fronteiras. O contágio a outras regiões do globo como a África subsaariana e o sudeste asiático surge como inevitável. Mas, nestas regiões, o terrorismo sofre uma metamorfose e adapta-se às reivindicações locais, normalmente associadas à etno-politica, perdendo parte do seu fulgor internacionalista.

Claro que irá infiltrar-se em estados e sociedades com aparelhos securitários fracos, na procura por disponibilidade de novos combatentes e acessos a recursos materiais e financeiros (quem guarda o alegado tesouro acumulado pelo OTEI?). Procurará também novos e velhos patrocinadores estatais.

Quem parece que se encontra apto a navegar uma eventual 5ª vaga mais dispersa, fragmentada e muti-estripe, com novas formas de violência política, é o Hizbollah. Esta organização, que surgiu na primeira onda, saiu reforçada do caos sírio-iraquiano, pela primeira vez, enviou uma força expedicionária para apoiar um regime político, o estado sírio representando por Bashar al Assad.

Eis-nos chegados ao cerne da questão: a charneira do terrorismo salafi-jiadista continua a ser o conflito israelo-palestiniano. Enquanto não for encontrada uma solução pacífica e duradoura para o conflito não sabemos quando chegará a sétima onda.

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