www.publico.ptpublico@publico.pt - 30 jun 08:31

Que bom voltar ao norbem

Que bom voltar ao norbem

Se esperarmos até que tudo passe para que tudo volte ao normal, ao normal voltaremos um séquito enorme de deprimidos, ansiosos, incultos e agressivos, isto é, um monte de menos-humanos pós pandémico.

Após as grandes catástrofes, causadas pela natureza ou pelos humanos, a Humanidade sempre se recompôs pela Cultura. Tome-se a Cultura na sua acepção essencial e inicial, o que distingue o ser humano dos seus antecessores biológicos mais directos. A Cultura, a começar pela percepção do Amor, o grande momento da história da Humanidade. O Amor na sua recepção e partilha; A Cultura expressa e impressa na Religião, como a gestão primeira da incompreensão, como resposta ao inexplicável, como entendimento do desconhecido mas sentido. A Cultura como Conhecimento, como o traço da compreensão e uso da própria relação da cultura com o Todo; A Cultura como Transmissão do Conhecimento, que permitiu a preservação e a evolução da nossa espécie. Por fim, a Cultura como Artes, como a percepção e incorporação da estética, os sentidos do belo e do bom, que deram ao Homem a perspectiva do ideal, da contemplação, da comunicação, da harmonia, e da visão de como o Externo é basicamente o nosso reflexo, e o quanto ele pode fazer bem ao nosso Interno. Faço essas postulações sem considerar a Linguagem, que segundo Chomsky é inata, e segundo Everett é Cultural. Não tenho uma clareza sobre isso, o que me leva a conferir à linguagem um misto de genética com cultura, como o é o Amor.

O conceito de Durante, nessas situações de crise e de calamidade, é tão importante como o Depois. Porque se o Durante for ignorado, o Depois será demasiado tarde. O Durante influencia a recuperação pós traumática. Se às vezes é difícil compreender o valor e a amplitude da Cultura, basta imaginarmos como seria enfrentar uma pandemia, mais precisamente ficar de quarentena ou isolado, sem o Amor (Afecto, Amizade, Dádiva, Compaixão, Paixão, Generosidade), sem a Religião (Fé, Crença, Deus, Disciplina, Prática, Meditação, Oração, Próximo, Ética), sem o Conhecimento (Sapiência, Lembrança, Habilidade, Esquecer), sem a Transmissão do Conhecimento (Educação, Ensino, Tecnologias, Escritas e Escrituras, Tradições Orais, Monumentos e Memórias) e sem as Artes (Música, Literatura, Dança, Poesia, Teatro, Cinema/vídeo, Pintura, etc.). Daí que é preciso preservar e incentivar tudo isso, Durante a crise, para que o Depois seja possível e plausível, e nos permitam dizer que não foram em vão o sacrifício e as perdas.

Com este entendimento, partilho algumas reflexões sobre o momento actual e o exercício da Cultura. Essencialmente, avanço duas premissas: a economia da Cultura não deve parar quando tudo para; o Investimento na Cultura deve duplicar ou quintuplicar quando a missão e a urgência é salvar o Humano. Os fundamentos práticos são simples. Perguntemos a alguém que acha que a Cultura não é importante neste momento: deseja um filho doente? Não. Então, que se invista na Saúde, pois. Quer legar uma sociedade violenta e insegura às suas crianças? Não. Que se invista, pois, na Segurança. Quer os seus netos analfabetos? Não. Que se invista, pois, na Educação. Enfim, quer seus descendentes incultos? E aguardemos a resposta. Desinvestir na Cultura é ajudar o vírus para depois da vacina, é criar as condições para o surgimento de danos mentais e espirituais pós pandémico que poderão levar décadas, ou gerações, a serem reparados.

Se esperarmos até que tudo passe para que tudo volte ao normal, ao normal voltaremos um séquito enorme de deprimidos, ansiosos, incultos e agressivos, isto é, um monte de menos-humanos pós pandémico. Voltar ao normal significa que estivemos num momento anormal. Porém, é enganoso pensar que basta o mal passar, e não volte, que estaremos a regressar ao normal. Não. Não há mais regresso ao normal conhecido. A História ensinou-nos isso. Vamos voltar ao norbem, porque é seu tempo. Norbem é esse progresso, esse olhar para o bem que perdemos em algum lado, e que precisamos cultivar e praticar de novo, nos momentos bons e nos menos bons. O tempo é de Novas Propostas, Novos Horizontes, Novos Olhares, Novas Posturas.

O poder público deve ter um papel orientador. Medidas como incentivos para que cada família adquira um livro por mês, por exemplo, é tão protector como recomendar o uso da máscara. A ignorância é contagiosa e contra ela não há vacina. São 12 livros por ano, e para legar uma biblioteca com apenas 120 livros aos filhos vão ser precisos dez anos. Mas é um começo. Um programa nacional de aquisição de livros para as bibliotecas públicas, municipais e escolares, de quadros e peças para a decoração dos espaços públicos e para o acervo das instituições, etc., colocaria toda a economia da cultura em movimento.

É bom guardarmos o sentido da estética nos momentos de crise. Há uma longa tradição de se investir em obras de arte para decoração de cemitérios, de fazer funerais com música e dança, de erigir mausoléus, etc., porque a estética ajuda a despenalizar a vida.

Sugiro, aliás, que uma homenagem pública e ampla seja feita aos profissionais da Cultura em todo o mundo (ao lado dos da Saúde e dos da Produção e Distribuição de Bens essenciais) pela sua bravura e entrega durante a pandemia.

Há braços fraternais.

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