www.publico.ptjaropa@bot.uc.pt - 30 jun 06:59

Alterações climáticas e a “inquisição” político-empresarial

Alterações climáticas e a “inquisição” político-empresarial

Os governantes e políticos mundiais, tal como a Inquisição, tentam desacreditar e até condenar os especialistas em climatologia.

Nicolau Copérnico (1473- 1543), Galileu Galilei (1564-1642) e Charles Darwin (1809-1882) foram aquilo a que hoje designamos por “contra-corrente”. Copérnico acabou com o geocentrismo aristotélico, o que lhe valeu ser condenado por ir contra as “Sagradas Escrituras” (Bíblia; Josué 10:13). Praticamente um século depois, Galileu ao estar de acordo com o heliocentrismo modelado por Copérnico (Da revolução de esferas celestes, 1543) foi condenado, tendo sido obrigado, já septuagenário, a abjurar de joelhos perante o Tribunal do Santo Ofício Romano (Inquisição). Charles Darwin (1809-1882) acabou por renunciar ao criacionismo (fixismo) e ao antropocentrismo baseados no Génese bíblico. Também foi desacreditado e vilipendiado. Mas, a ciência demonstrou que qualquer um deles tinha razão.

Creio que hoje ninguém duvida de que a Terra não é um planeta estático e que descendemos de outros hominídeos. Os princípios básicos do evolucionismo estão, actualmente, bem estabelecidos por vários ramos da ciência. O evolucionismo não é, pois, uma teoria, mas sim um fenómeno natural. Apesar disso, ainda há fixistas e estabelecimentos de ensino onde é expressamente proibido ensinar evolução. Aliás, conheço gente que nem sequer acredita que o Homem já esteve na Lua. É neste estado de obscurantismo e credibilidade em mitos que os políticos, empresários e religiões pretendem manter as populações para as controlarem facilmente.

Actualmente, vivemos numa época semelhantemente inquisitorial para os cientistas. A ciência tem dados irrefutáveis das presentes alterações climáticas devidas a actividades antrópicas. Além disso, a comunicação social tem noticiado e mostrado (TV) o degelo das calotes polares; a elevação das temperaturas (por exemplo, 38ºC na Sibéria agora em Junho), o desaparecimento, por submersão, de ilhas por elevação do nível médio dos oceanos (por exemplo no arquipélago Kiribati) e o recuo de costas marítimas (por exemplo costa de Esposende e da Caparica).

Exemplo da falta de ética dos políticos e governantes tem sido o falhanço das cimeiras internacionais sobre o ambiente.

Praticamente, tudo começou há cerca de meio século, em 1972, com a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, onde estiveram representantes de 113 países, sem se ter conseguido um acordo global e unânime.

É fácil assinar acordos, mas a falta de decoro e de ética dos políticos que os assinam leva a que não se cumpram esses acordos, pois sabem que não são politicamente penalizados. Só que a população humana continua inconsciente dos graves problemas ambientais que podem levar ao extermínio da nossa própria espécie. Basta o exemplo do que se passa no nosso país. Houve alguma preocupação com a educação ambiental escolar, logo a seguir a duas cimeiras (Belgrado e Tbilisi, 1977), mas isso está, na prática, plenamente esquecido. Não só não há programas de educação ambiental de âmbito escolar, como as estações de rádio e de televisão públicas não emitem programas de educação ambiental.

Após tantos anos de conferências internacionais, a falta de ética de grande parte dos governantes mundiais faz com que continuem a ignorar os acordos, ao mesmo tempo que afirmam, descaradamente, que as alterações climáticas são uma invenção dos cientistas e que o desenvolvimento (desenfreado e altamente poluente) actual é um desenvolvimento sustentável.

Um bom exemplo disso, muito recente, foi o primeiro-ministro, António Costa, ter anunciado, no “Dia Mundial do Ambiente” deste ano, que o aeroporto do Montijo ia avançar, por ser o local economicamente mais favorável, apesar de se saber que essa área será submersa ainda neste século. Nesta declaração televisiva, faltou o ministro do Ambiente para bater palmas, assim como faltou o Presidente da República para “abençoar” o evento. É por isso que nunca colaboro na farsa dos “Dias Comemorativos” (vide jornal Público 2928: 11 (1998), “A farsa dos dias comemorativos”).

Os governantes e políticos mundiais, tal como a Inquisição, tentam desacreditar e até condenar os especialistas em climatologia que, constantemente, alertam para o desastre imparável que nos espera com as alterações climáticas.

Basta ouvir governantes como Trump, Bolsonaro, Maduro e quejandos, que prefiro abster-me de qualificar, para nos capacitarmos de que é fundamental elucidar o mais rapidamente possível a população, para que não venhamos a ter cientistas presos ou condenados a não investigarem por lhes terem retirado financiamento, e não caminhemos inexoravelmente para um suicídio colectivo.

É fundamental uma educação ambiental eficaz e esclarecedora e estações públicas de rádio e televisão com mais programas científicos esclarecedores do que políticos e demagógicos.

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